Há um silêncio curioso pairando sobre Brasília, que não é de paz nem de serenidade institucional. É algo típico de antessala de hospital quando alguém importante entra no centro cirúrgico e metade dos parentes começa a recalcular heranças, amizades e versões.
O nome da vez é Vorcaro, homem de cofre largo, trânsito refinado e agenda que, se um dia for aberta por inteiro, talvez revele que o sistema financeiro nacional tem corredores mais movimentados do que certos gabinetes ministeriais. Jogado à cova, Daniel agora observa o mundo por entre grades, enquanto a capital da República observa o banqueiro como quem olha um fósforo aceso cair perto do paiol.
A saída do advogado Pierpaolo Bottini, conhecido por tratar delação como quem vê um sacramento proibido, e a entrada do criminalista José Luis Oliveira Lima, veterano em guerras onde a palavra vale redução de pena, foi lida nos corredores do Poder como se alguém tivesse puxado discretamente a toalha da mesa antes do jantar. Ninguém confirma nada, ninguém admite nada, mas até os cafezinhos do Congresso ficaram menos inocentes.
Nunca é demais lembrar que banqueiro não cai sozinho, e que quando tropeça, costuma segurar no paletó de quem estiver por perto. Nessas horas, dependendo do desespero, leva junto quem estava longe também.
Há deputados que passaram a falar baixo. Há operadores que reaprenderam a apagar mensagens. Há ex-amigos redescobrindo subitamente a virtude do esquecimento e, em certos gabinetes, a palavra “colaboração” já provoca mais calafrio do que votação secreta.
Se vier, a eventual delação de Vorcaro não será apenas um documento jurídico. Pode virar um álbum de fotografias de bastidores, onde há encontros discretos, favores elegantes, telefonemas de madrugada, jantares onde ninguém pagava a conta e todos fingiam discutir o futuro do país, quando na verdade tratavam do presente de poucos.
Brasília é pródiga em fabricar heróis de ocasião, mas também coleciona sobreviventes que conhecem demais uns aos outros. Por isso, quando alguém do andar de cima é encurralado, não falta quem tema que a memória dele seja melhor do que a própria defesa.
No fundo, o pavor não está no que já se sabe. Está no que ainda pode ser dito. É que no centro do Poder, aprendeu-se que o leão só parece domesticado enquanto está alimentado. Quando falta carne, ele começa a reconhecer rostos. E há muita gazela elegante travestida de Daniel circulando por perto.
Nos salões refrigerados do mercado financeiro, teme-se que uma eventual colaboração revele engrenagens que sempre funcionaram melhor longe dos holofotes. Nos gabinetes políticos, o receio é que antigos favores ganhem data, hora e sobrenome. Em escritórios discretos, há quem já revise agendas passadas como quem procura pegadas antes da chuva. E até nos corredores mais solenes da República existe quem saiba que certas amizades empresariais, cultivadas com taças erguidas e sorrisos protocolares, podem perder o verniz no instante em que alguém resolve trocar silêncio por sobrevivência.
p/s – segundo a Bíblia, Daniel saiu ileso da cova dos leões.
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José Seabra é CEO fundador de Notibras
