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Sinônimo de sabedoria, livro não é passaporte para liberdade de golpista

Acompanhando o noticiário dos últimos dias, li que Jair Bolsonaro quer ler. Para isso, ele pediu autorização ao ministro Alexandre Xandão para folhear de tudo um pouco, menos a Carta Capital, a Jacobin Brasil, o Brasil 247 e o Brasil de Fato. Fora esses veículos, considerados de esquerda, da fórmula do papel higiênico à melhor posição para sexo entre morcegos, o que vier ele traça. Considerando a desnecessidade de autorização para ler na prisão, o importante para o ex-presidente da República não é a leitura, mas a redução da pena de 27 anos e três meses.

Para quem nunca leu, não sabe o que é ler um bom livro e tem raiva de quem os escreve, a tarefa é mais do que inglória. Ela beira o impossível. Como vale tudo para incomodar o país e o povo brasileiro, Bolsonaro talvez tope qualquer tipo de brochura, inclusive a Constituição. Ele não sabe, mas ler livros é viajar sem sair do lugar. Para os sábios, ler é uma jornada de conhecimento e imaginação. A leitura abre portas para novos mundos e perspectivas, transformando a alma e a mente.

Para Mário Quintana, os verdadeiros analfabetos são os que aprendem a ler e não leem. Autor britânico, Neil Gaiman avalia o livro como um sonho que a gente segura na mão. Como se estivesse pedindo um copo de água com açúcar para amenizar seu soluço crônico, Jair Bolsonaro sugeriu a Xandão barganhar a diminuição da pena por conta da leitura de livros variados. Os livros não são para isso. Não sei se o ministro levou em consideração tal recurso. Provavelmente ele ainda está pensando no que propor primeiro. No lugar dele, eu recomendaria inicialmente a Bíblia e a Constituição de 1988.

Não necessariamente nessa ordem, é claro. No livro dos livros, o mito poderia aprender que o Deus dele é o mesmo de todos os brasileiros e que quem anistia golpista, golpista é. Quanto à Carta Magna, a recomendação é para a leitura reflexiva dos artigos 1º., 4º. e 5º., os quais, respectivamente, tratam da soberania, cidadania, dignidade da pessoa humana, livre iniciativa, pluralismo político, sociedade justa, erradicação da pobreza, o bem de todos, liberdade, igualdade, segurança, propriedade e outros direitos e deveres individuais e coletivos.

Embora haja quem negue, é tudo que o descontrolado mito deliberadamente sempre ignorou e tentou violar até os 55 minutos da prorrogação. Não conseguiu porque, auxiliado pelo WAR oficial, o juiz entrou em campo e impediu que o jogo fosse vencido no tapetão. Pelo que os brasileiros de Norte a Sul conhecem do ex-mito, a pergunta que muitos devem estar se fazendo é óbvia: De que adianta ler dois mil livros se o leitor não consegue refletir sobre seu passado mais recente? O mais antigo é coisa para se pensar ao longo da longa cana.

Com todo respeito à inteligência do mito, o problema maior não é ler um ou dois mil livros. Caso Xandão autorize a remissão da pena, o ex-presidente terá de apresentar periodicamente resumos dos livros lidos para avaliação de uma comissão de professores da rede pública. Aí o bicho pega. Melhor pensar em algo menos difícil para fazer durante os 27 anos de reclusão. Quem sabe ler a coleção do Recruta Zero e, nas horas vagas, reestudar a tese de que um golpe de Estado tem duas vertentes: a tática e a força. Como ele jamais teve apoio superior e seus inferiores eram tão ou mais destrambelhados do que o rei, o golpe saiu pela culatra.

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Heliodoro Quaresma, jornalista aposentado, mantém uma velha Remington como troféu na estante da sala, e passou a usar um Notebook zerado, escrevendo artigos para Notibras

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