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Sob os olhos vivos de Xandão, ‘mito’ está livre dos ‘maricas’ e dos soluços

Como se diz no subúrbio do Rio de Janeiro, não faz bem para a alma chutar cachorro morto, expressão que, no popular, significa ser cruel com quem já está derrotado, em situação vulnerável. É o mesmo que tripudiar sobre o vencido. Não farei isso, mas, apenas como ilustração, o moço que mudou de endereço nesse fim de semana jamais se viu como “cachorro morto”, sem esperança. Pelo contrário, se achando com sangue real, ele nunca foi daqueles de aceitar migalhas. Por isso, a exigência de uma Smart TV, de ar-condicionado sem barulho e aposentos presidenciais na Papudinha. Tudo pago pelo Erário.

Lugar de papudo para uns, espaço vip para outros, o AP de 64,8 metros quadrados pode ser o que for, mas não é o Palácio do Planalto, o lar doce lar, muito menos o QG do Exército, locais sem divisórias, sem barras nas janelas, sem meganhas de olho 24 horas por dia e, o que é melhor, sem a plaquinha na porta com a inscrição: Tô preso. O luxo da nova “residência” talvez indique que o mito que virou lenda urbana é uma exceção à regra. Está na lei que matar, roubar, tentar derrubar adversários, ameaçar oponentes e mirar a democracia são crimes comuns, obrigando seus construtores, executores e financiadores a celas comuns.

Como exceção à exceção, que ele seja feliz e que, com a harmonia da poesia sem sinergia ou empatia, que se transforme logo em fantasia. Apesar de exímio tocador de tambor nas curimbas de periferia, sou um cidadão de origem cristã. Por isso, mesmo contrariado, tenho a obrigação de aceitar os desígnios do xerife Xandão. Afinal, a paz começa quando a gente para de criar expectativas a respeito do que não podemos controlar. Seria a máxima a ser utilizada pelo arrogante papudo em seus tempos de cartola político. Fosse eu, teria me valido de um dos versículos do capítulo 43 do livro de Isaías, cujo texto recomenda esquecer o passado e viver coisas novas.

Difícil imaginar um quase imperador se moldar a uma vida de nobre recluso. Problema dele. Muito mais poderoso, Nero foi forçado ao suicídio, após ser declarado inimigo público pelo Senado Romano. Tiveram o mesmo fim Marco Antônio e Cleópatra. Júlio César foi assassinado por senadores romanos liderados por Julius Brutus, seu filho adotivo, enquanto Alexandre, o Grande, morreu em decorrência da tifóide. Chamam de febre, mas é tifóide mesmo. Ou seja, de nada vale o poder diante das leis do homem e, principalmente, da lei divina. Os que se livraram da tifóide e permanecem acima dos sete palmos, estão reduzidos a uma quitinete emprestada pelo Estado, uma bolsinha de roupas e um “bercinho” com grades em volta.

Nada mal para quem tentou golpear a democracia brasileira. A decisão do ministro Alexandre de Moraes pelo menos serviu para calar os que gritavam nas ruas que o mito sofria perseguição do Judiciário brasileiro. Longe dos revoltosos, na Papudinha o papudão bravateiro estará livre dos “maricas”, não corre risco de gripezinhas e talvez se libere dos (in)convenientes soluços. Só não está distante dos olhos vivos de Xandão. De fora, fico imaginando o cidadão sendo torturado pelo coronel Brilhante Ustra, ídolo dele. Melhor imaginá-lo fazendo jus ao Prêmio Nobel da Paz. Mimimis e chororôs à parte, digo – na verdade escrevo – que foi só a gente se livrar de uma alma peçonhenta para que as energias boas e positivas voltassem. Aproveitemos.

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