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Solidão, sem ser ciência exata, tampouco preenche nossos muitos vazios

A tese dos pensadores a respeito da solidão é por demais simplória, singular e definitiva. Segundo eles, não existem teses relativas ao tema. A reflexão é unilateral, isto é, cada tem a sua. Uns acham que amar sua própria companhia é a maior razão para não se sentir sozinho. Outros preferem não depender de pessoas, pois a ausência delas gera solidão. Alguns entendem que estar só é a melhor forma de encontrar a paz. Para os mais céticos, a solidão pode ser uma benção disfarçada. Os crentes e esperançosos acreditam que estar sozinho, às vezes, é a melhor maneira de buscar inspiração.

Decidido a abraçar para ser abraçado, comungo com os escritos do poeta moçambicano Mia Couto. É de sua autoria uma das mais brilhantes frases destinadas àqueles que escolhem o isolamento: “Ninguém tem ombro para suportar sozinho o peso de existir”. Como se vê, a solidão não é uma ciência exata. Ela não é um vazio a ser preenchido, mas um momento a ser vivido. Portanto, como nenhum ser humano nasceu para viver sozinho, aprender a ser só na vida não significa se isolar como os ermitões. Aí, sua existência física precisará ser estudada. Embora goste do silêncio e aprecie minha companhia, nem sempre consigo transformar eventual introversão em poesia. Pelo contrário.

Como bom brasileiro, nasci para andar sempre com alguém. Preciso sempre de parceiros para indagá-lo sobre o momento de eu me tornar tudo aquilo que disse que seria. Resumindo, não me imagino acordando sem mim. Dependendo do avaliador, a solidão pode ser a lava que cobre tudo, a fera que devora ou a ressaca bandida. Ao contrário da vingança, que é um prato que prazerosamente se come frio, o recolhimento machuca, entristece e a casualidade da frieza se transforma unicamente em uma arma de defesa. Não julgo os que optam pela taciturnidade. Cada qual com seu cada qual.

O que de fato acho é o que sempre achou o “colega” jornalista Apparício Torelly, também conhecido pelo pseudônimo de Barão de Itararé: “A alma humana, como os bolsos da batina do padre, tem mistérios insondáveis”. Enfim, estou condenado à esperança. Por essa razão, nenhuma de minhas expectativas remete a separações, retiros ou a exílios prolongados. Dia desses, uma simpática fã quis saber por que ainda escrevo como se estivesse iniciando na profissão. Sem resposta imediata, lembramos juntos do Rei Roberto Carlos. Com 85 anos recém-completados, ele vive um dos períodos de agenda mais cheia da carreira. Por que o cantor mais bem-sucedido do país ainda trabalha tanto?

A conclusão talvez seja a solidão. O artista das multidões parece querer cada vez menos ficar sozinho contando dinheiro em sua cobertura triplex no Rio. Decifro o meu caso como algo similar aos pingos da chuva. Nunca arrisquei, mas tenho a nítida impressão de que não me molhei entre um pingo e outro. Otimista graduado e pós-graduado na vida, aprendi nos bancos da praça que o amor não é coisa para amador. Daí a certeza de que não quero estar só quando conseguir tempo para o contratempo de minhas derradeiras loucuras, entre elas voar com as asas do prazer por cima de uma montanha rochosa ou, quem sabe, ao lado de uma pomba-rola assobiadora.

Sem qualquer proximidade com os poetas do absurdo ou do simbolismo, me associo aos escribas das verdadeiras mentiras. Por exemplo, não esperem que eu diga que já neguei fogo. Nem a pau eu direi, principalmente porque parto do pressuposto de que o oposto da vida não é a morte, mas a repetição. Se um dia falhei, me mantive de pé, pois só os fracos continuam no chão. Dito tudo isso, de que adianta eu me imaginar na alcova com Brigite Bardot, Catherine Deneuve, Mia Farrow e Angelina Jolie se não tiver para contar? Sei que ninguém vai acreditar, mas, pelo menos, permitiram que eu fizesse meu comercial.

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Heliodoro Quaresma, jornalista aposentado, mantém uma velha Remington como troféu na estante da sala, e usa um Notebook pra escrever artigos pontuais para Notibras

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