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Som da saudade antecipa carnaval em Pernambuco

A pré-temporada do Carnaval de Pernambuco 2026 foi oficialmente aberta neste domingo (18), e não poderia haver cenário mais simbólico do que o salão do Clube da AABB, tomado por cores, passos ligeiros e vozes que cantavam não apenas uma música, mas uma história inteira. O Bloco da Saudade fez jus ao nome e arrastou uma multidão que transformou o espaço em território sagrado do frevo.

Desde as primeiras horas da tarde, era possível sentir no ar que não se tratava apenas de mais um ensaio carnavalesco. Havia ali uma espécie de pacto silencioso entre gerações: os mais velhos, guardiões da memória; os mais jovens, herdeiros do ritmo; e os turistas, iniciados naquele instante em um dos rituais culturais mais intensos do país.

Quando os primeiros acordes de “Evocação nº 1” ecoaram, o salão inteiro pareceu responder em uníssono. O frevo-canção, eternizado como um hino da saudade carnavalesca, foi um dos mais cantados da tarde, entoado com emoção quase litúrgica:

“Felinto… Pedro Salgado, Guilherme… Fenelon
Cadê os teus blocos famosos?
‘Bloco das Flores’… ‘Andaluzas’…
‘Pirilampos’… ‘Apôis Fum’…
Dos carnavais saudosos!”

Cada verso funcionava como uma convocação. Nomes, blocos e tempos passados surgiam não como lembrança distante, mas como presença viva, reafirmando que o frevo não pertence ao passado — ele apenas se renova a cada fevereiro que se aproxima.

Na alta madrugada — como diz a letra — o coro seguia firme, embalado pelo som da marcha-regresso, sucesso imortal “dos tempos ideais do velho Raul Moraes”. Ali, não havia distinção entre palco e plateia. O frevo corria solto, feito corrente elétrica, atravessando corpos, memórias e afetos.

Mais do que abrir o calendário carnavalesco, o encontro na AABB cumpriu um papel essencial: reacendeu o espírito coletivo que antecede a saída do Galo da Madrugada, quando Recife se transforma em capital mundial da alegria. É nesse intervalo — nos dias que antecedem o sábado gordo — que o frevo cumpre sua missão mais profunda: animar milhões de nativos e visitantes, conectando passado e presente em um mesmo compasso acelerado.

A pré-temporada está aberta. E, como manda a tradição, não foi o relógio que deu o sinal de partida, mas o frevo — essa força invisível que, ano após ano, lembra Pernambuco de quem ele é.

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