Notibras

Supersalários deixarão o Planalto com a esquerda

Capitanias hereditárias criadas pelas cabeças coroadas de políticos desavergonhados, inconscientes, despreparados e adeptos da canalhice, a Câmara e o Senado são entidades muito mais perigosas do que qualquer facção criminosa enraizada nos grandes centros do Brasil. Nas chamadas comunidades, a bandidagem vive à custa da desgraça de seus moradores. No Congresso Nacional, parlamentares, a elite dos servidores, os agregados, os protegidos e os convidados para o convescote salarial vivem nababescamente à custa do suor e do sofrimento dos milhões de trabalhadores de salário-mínimo.

Como em ano eleitoral vale tudo, inclusive pisar na cabeça daqueles que carregam o Brasil nas costas, a vagabundagem política decidiu aderir à vergonha nacional. Com apenas dois toques e uma finalização meteórica, os caciques Davi Alcolumbre e Hugo Motta resolveram presentear o pessoal da tribo que diariamente ajuda a transformar as duas casas dos horrores em um circo a céu aberto. Deputados, senadores, servidores, assessores e encostados são os mestres de cerimônia, os apresentadores e os chicoteadores da plateia. Os palhaços e os chicoteados são os assalariados e os barnabés do Executivo.

O aumento salarial e a reestruturação de cargos aprovados por Alcolumbre e Motta mereceram intensas críticas, com frases focadas no alto impacto financeiro, privilégios e distanciamento da realidade da população. O clamor público decorrente da certeza de mais salário e menos trabalho na Câmara e no Senado não incomodaram os presidentes das duas casas legislativas. Pelo contrário. Pródigos em sacanagens explícitas contra o povo, as excelências mais uma vez parecem ter confundido as pirâmides do Egito com as piranhas do agito.

Não há outra hipótese para eles terem aprovado com extrema rapidez supersalários com folga de um dia a cada três trabalhados, mas deliberar a passos de cágado a escala 6×1 destinada aos brasileiros que ganham o mínimo. Além de ganhar acima da lei, os privilegiados também terão direito a uma Gratificação de Desempenho e Alinhamento Estratégico, que pode chegar a 100% do vencimento básico. Cagando para a repercussão negativa de suas decisões, os rufiões do Congresso deram uma de Pôncio Pilatos, lavaram as mãos sujas e jogaram para o presidente da República o ônus do veto da bandalheira com o dinheiro público.

Ou seja, caberá a Luiz Inácio tentar explicar aos sanguessugas do Erário que não é justo receber penduricalhos capazes de elevar seus salários a dez, 15 vezes acima do que recebe a média dos trabalhadores. Se comparados com a maioria dos contribuintes, provavelmente a diferença chegará a múltiplos de 50. E depois se dizem contrários à corrupção, à malandragem e à pilantragem política. Garantir aumentos acima da lei também é uma ilegalidade. Diante de tamanha irresponsabilidade legislativa, que Lula vete pelo menos os penduricalhos e devolva para o Congresso a obrigação de derrubar o veto.

O ministro do STF Flávio Dino levantou a bola. Cabe a Lula o chute definitivo. Contraditórias por natureza, as excelências aprovaram essa excrescência salarial justamente quando a nação discute limites fiscais e a necessidade de reorganizar as contas públicas. O mais grave é que aumentaram despesas, mas não apresentaram contrapartidas. Mais do que desfaçatez, é realmente uma canalhice. Como a turma do salário-mínimo é maioria esmagadora no cenário econômico do Brasil, tudo indica que a direita assanhada e disposta a ampliar o abismo existente entre a elite e o proletariado jogou a toalha.

Aproveitar a proximidade do pleito presidencial para discutir e aprovar uma proposta desse tipo é empurrar a eleição para o colo da esquerda, segmento que, ainda que de forma eleitoreira, defende os interesses da população mais carente. Se a ideia das excelências é confundir abóbada celeste com a boba da Celeste, que elas aguardem outubro, quando boa parte terá de optar entre o bife de caçarolinha e o rifle de caçar rolinha. Na melhor das hipóteses, a maioria vai ser obrigada a rezar para Frei Damião como último recurso para evitar o freio de caminhão.

………

Misael Igreja é analista de Notibras para assuntos políticos, econômicos e sociais

Sair da versão mobile