No Rio de Janeiro, terra da alegria e do sorriso farto e gratuito, diz a lenda que somente sete coisas conseguem curar (sem a presença do Samu) de unha encrava a chifre enraizado. Não há uma ordem pré-estabelecida, mas roda de samba, Maracanã em dias de jogos do Mengão, a nega véia (afrodescendente ficaria fora da norma), drocotó (dobradinha com mocotó), rabada com agrião, garrafada com cunhão de alcatraque (conhaque de alcatrão para alguns) e uma boa curimba fogem à regra e desafiam todas as teorias da ciência moderna. Acima de quaisquer suspeitas, são itens medicamentosos, quase milagrosos, e ao alcance de todas as classes sociais.
Com exceção do Maraca, tudo isso pode ser encontrado nas boas casas do ramo, as quais já se incrustaram até mesmo nas ex-glamourosas e granfinas ruas e praças da Zona Sul. Com as devidas ressalvas religiosas, afetivas, abstêmias e estomacais, sou adepto de cada um dos sete itens. É claro que, sem renunciar do meu direito de ir e vir e, sobretudo, do meu livre arbítrio, prestigio de modo mais eloquente o Mengão, a rabada e a curimba, também conhecida por macumba. Aliás, desafio os amigos (e inimigos) a apresentar mulher mais prendada do que minha vizinha dos fundos. Na cozinha, ela é inegociável, invendável e imprestável. Que ela não me ouça, mas em rabada não há nada parecido. É um primor.
Sobre a preferência rubro-negra, a recente profusão de títulos dispensa mais textos. Tudo bem que o clube gastou exageradamente com alguns portugueses. Com um deles, foram R$ 15 milhões para, brilhantemente, conquistar cinco vices em três meses. E depois os burros são os lusitanos. Mesmo demitido, o gajo merece respeito. Afinal, fez mais pela Nação Rubro-Negra em 90 dias do que alguns ex-presidentes da República. Chegou um argentino metido a carioca, que não ganhou nada em sua terra natal, perdeu tudo na França e não mostrou nenhum valor na Espanha. Espero melhor sina no Mengão de todos nós com esse novo velho português.
Digo de todos nós, pois, a exemplo da apresentadora Sônia Abrão (Rede TV), que só fala da Globeleza, vascaindos, tricolores, curintianos, gremistas, palmeirenses e atleticanos não vivem sem o Mais Querido. É uma questão de amor platônico. A respeito da curimba, inicialmente devo informar àqueles cujo vernáculo ainda não se popularizou que o termo é um sinônimo aflamengado de macumba. Didatizando ainda mais a expressão, é o local mais procurado pelos cariocas assoberbados de preguiça e desassistidos de grana (são os desempregados), pelos que dividem a patroa com o Ricardão (normalmente no plural) e, principalmente, por aqueles que transformaram a manguaça em um projeto de vida. Os venerandos pais de santo também atendem os sofredores, preferencialmente os recém-casados, os trocados e as viúvas de sétimo dia.
Embora seja simpático a todo tipo de religião, meu debut foi na umbanda, mais precisamente em um terreiro de macumba. Por recomendação de um amigo de infância, adentrei o recinto e, de cara, me assustei com uma entidade que queria me pegar por trás. Depois descobri que o caboclo era o mesmo que não queria sair de cima da mulher do tal amigo. Coisas de trabalho de encruzilhada. Entre uma e outra baforada de charuto e goles de marafo, senti um zumbido nos ouvidos e um palavriado estranho: “Mizinfio”…Sem saber quem era, respondi rápido que ninguém mizinfia nada. Percebi a tempo de me desculpar com o baba (o mestre) que se tratava apenas do caboclo pegador da madame devota, impoluta, virtuosa e inconspurcada. Ela era tudo isso, mas o caboclo era baitelo e dominador.
No Rio de todas as regras, bati tambor, rodei a baiana, cantei para o dito cujo subir, fiz numerosos despachos, mas o máximo que consegui foi provocar um conflito generalizado. Além do caboclo, pretos velhos e exus também dividiam a madame sem que os outros soubessem. Na verdade, sabiam porque no mundo espiritual nada fica escondido. O espírito obsessor do parceiro era o Kid Bengala dos trópicos. E com ele ninguém se metia. Era o pajé e somente ele é que se metia com os outros. Fugi do caboclo, mas continuo frequentando todo tipo de religião. É Deus acima de qualquer coisa e ponto. Me sinto bem na Igreja Católica, respeito os evangélicos, considero os adeptos do candomblé, mas minha afinidade é com as teorias de Allan Kardec, inclusive com o dogma da reencarnação. Acredito tanto que já pedi para voltar como sou hoje. Só que com o pescocinho de frango um pouquinho maior.
………….
Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras
