Fiel às minhas origens suburbanas, jamais abri mão da alegria, do sorriso franco, de meus objetivos, de minhas roupas ridículas e dos botecos do tipo cospe grosso ou pé sujo, em companhia de boas pessoas e, principalmente, de pessoas boas. Não tenho mais medo de nada. Convivo bem com a falta de dinheiro, com as traições, com as mentiras e com as falsidades políticas. Infelizmente, o que me dói são as articulações, as juntas, a panturrilha e os dedos quando se encontram com as câimbras noturnas.
São essas dores que me fazem lembrar que, mais importante do que viver, é saber viver. Por isso, mantenho viva em minha cabeceira a frase que pretendo escrever com letras maiúsculas em minha lápide: Todo problema é pequeno se temos uma gelada ao alcance da mão. Se puder, escrevo um segundo parágrafo para que, em vida, ninguém esqueça que a saideira não tem pressa.
Se alguém duvida, devo metade de meus conhecimentos filosóficos e futebolísticos aos botecos, tidos e havidos como o confessionário dos entendedores da vida. É lá que, esquecendo a expressão ruim, brindo aos bons momentos. Considerando que cerveja é a mesma coisa que um abraço na forma líquida, digo sempre aos amigos que, caso pensem em dirigir, não bebam, mas se forem beber, me chamem.
De preferência nos pés sujos da cidade, locais nos quais são guardadas nossas melhores histórias. Além do chope gelado para refrescar as ideias, é neles que fazemos novas amizades e reforçamos as antigas. Entre uma e outra rodada, faz bem para o corpo forrar a vibe estomacal. Às quintas e sextas-feiras, dias de botecar, nada mais salutar do que a gorda feijoada da magra Setembrina. É o rango que todos comem até a dentadura pedir habeas corpus.
Aos sábados, após a feira com a madame, nada mais resfolegante do que aprender a comer caranguejo. Seguindo a filosofia do Quincas Berro D’água, basta abrir as pernas do bicho, tacar o pau e depois chupar. Simples como molhar a palavra. Inóspito, profano e satânico para alguns, mas hospitaleiro, sagrado e divino e para os bebuns e simpatizantes da vida, o boteco está acima de todas as filosofias, ideologias, controvérsias, chifres e dores de amor.
Afinal, em qualquer esquina há um bar que vem para o bem. Se não se incomodarem, nos pés sujos normalmente me sinto na África. Depois da quinta ou sexta garrafa, me sinto rodeado por girafas, leões, zebras, hienas, cisnes e até tucunarés. Me perdoem ter de interromper a narrativa, mas acabo de ver um hipopótamo voando sobre minha cabeça. É hora de me recolher.
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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras
