Vivemos na era do “próximo vídeo”. Um gesto simples de polegar — quase automático — nos conduz a uma sequência interminável de conteúdos de 15, 30, 60 segundos. Rápidos, vibrantes, hipnóticos. Mas o que parece entretenimento inofensivo pode estar moldando, silenciosamente, o cérebro de crianças e adolescentes.
Pesquisadores da Universidade de Macau concluíram, após longo estudo, que o consumo frequente de vídeos em formato curto nas redes sociais impacta negativamente o desenvolvimento de jovens e adolescentes. O alerta não é moralista, nem tecnofóbico. É científico.
O principal ponto destacado pelos pesquisadores é a alteração nos padrões de atenção. O cérebro adolescente, ainda em formação, adapta-se rapidamente a estímulos curtos e intensos. Quando exposto continuamente a conteúdos rápidos e altamente recompensadores, passa a ter maior dificuldade em sustentar foco em tarefas longas — como leitura, estudo ou atividades que exigem concentração prolongada.
É a lógica da recompensa instantânea. Cada vídeo oferece uma pequena descarga de novidade, humor, surpresa ou emoção. O cérebro aprende a buscar esse estímulo constante. Em comparação, atividades que exigem paciência tornam-se “lentas demais”.
O estudo também aponta possíveis reflexos no desenvolvimento emocional. A comparação social intensificada — amplificada por algoritmos que privilegiam padrões estéticos e comportamentais — pode aumentar ansiedade, baixa autoestima e sensação de inadequação.
Além disso, há indícios de que o excesso de vídeos curtos pode afetar:
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Capacidade de memória de longo prazo
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Desenvolvimento da leitura profunda
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Habilidade de pensamento crítico
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Controle de impulsos
Especialistas lembram que a adolescência é um período crucial para a consolidação de funções executivas, como planejamento, organização e autorregulação. Estímulos fragmentados e contínuos podem interferir nesse processo.
Importante frisar: o problema não é a tecnologia em si. Plataformas digitais oferecem acesso a informação, criatividade e conexão. O alerta recai sobre o consumo excessivo e desregulado, especialmente em fases sensíveis do desenvolvimento cerebral.
A recomendação dos pesquisadores inclui:
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Limitação de tempo de uso diário
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Incentivo à leitura e atividades offline
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Educação digital nas escolas
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Participação ativa dos pais no acompanhamento do conteúdo
Estamos criando a primeira geração verdadeiramente moldada por algoritmos. Nunca antes o entretenimento esteve tão personalizado, tão imediato e tão constante.
A pergunta que fica é incômoda: estamos treinando nossos jovens para pensar — ou apenas para deslizar?
O estudo da Universidade de Macau não pede pânico. Pede equilíbrio. Porque, no fim das contas, a questão não é se a tecnologia fará parte da vida dos jovens — isso é inevitável. A questão é quem estará no controle: o usuário ou o algoritmo.
E essa escolha começa agora.
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Marta Nobre é Editora Executiva de Notibras
