E o sonho de ser astro acabou para o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Como um jogador de futebol mediano, daqueles que esquenta banco jogo sim e outro também, ele volta para o vestiário sabendo que não terá outra chance de ouvir os apupos ou as vaias dos arquibaldos e dos geraldinos. Eterno ministro da família Bolsonaro, Tarcísio visitou o “chefe” apenas para ouvir o veredito definitivo: Você já foi, mas não é mais. Coisas de quem já se acostumou com o crachá de subordinado.
Na Papudinha, onde passa férias forçadas, Jair Messias deve ter lembrado ao governador que quem nasce para ser coadjuvante nunca terá o papel principal. Peru de fora, mas que adora dar uma peruada, acho que a frase mais correta para a ocasião é aquela das bulas de xarope para políticos que nascem, crescem e morrem bajuladores. Meu caro governador, embora administre o maior estado do país, quem nasceu para ser pinto jamais enxergará com águia.
Desencorajado pelo clã e de volta à planície, Tarcísio de Freitas não só terá de esquecer o Palácio do Planalto, mas precisará montar uma nova prateleira em seu arquivo morto, na qual guardará os manuscritos do projeto presidencial que supostamente havia apresentado aos “compadres” riquinhos da Faria Lima, o coração do mercado financeiro nacional. O “salto” que prometera para o Brasil virou um pulinho de amarelinha.
Além de se contentar com a provável reeleição em São Paulo, ele desde já está obrigado a buscar votos para Flávio Bolsonaro, sob pena de ser devolvido à segunda divisão da política brasileira. Na medida em que o Brasil inteiro conhece a gratidão do governador ao bolsonarismo e sua subordinação ao ex-presidente Jair Bolsonaro, de nada adiantará futuros esperneios do tipo “sou um soldado do partido e do clã”.
Para quem se imaginou um quase general de bravata, tudo que Tarcísio disser em público ou no privado será usado contra si. O primeiro passo no sentido de se posicionar como avestruz foi dado logo após o desmotivado e desafeiçoado encontro com Bolsonaro na Papudinha. “Nunca tive como objetivo disputar uma eleição nacional”. É claro que sempre teve. Uma mentira a mais não mudará a imagem de ingrato e de traidor que ele construiu junto à família após entender que poderia galgar sozinho os degraus da fama palaciana.
Portanto, desgarrado do rebanho presidencial, Tarcísio de Freitas redireciona seu faro de ex-touro bravio para o eleitorado paulista. Se a eleição fosse hoje, provavelmente estaria eleito. Como faltam oito longos meses, até lá tudo pode acontecer, inclusive nada. O que ninguém poderá mudar é a memória dos brasileiros que votarão em outubro para presidente da República. Na ocasião, qualquer referência ao governador terá a mesma conotação circunstancial de que um político que nasceu para ser prego jamais chegará a martelo.
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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras
