Embora veterano na labuta jornalística, aprendi cedo que o primeiro dever da inteligência é desconfiar dela mesma. De um lado ou de outro da notícia, sempre pode estar de plantão um mentiroso, aquele que, quando é descoberto, se faz de vítima. Antes de continuar com a narrativa, diria que qualquer semelhança com o que vivemos recentemente no país não é mera coincidência. Por isso, aplico aos meus escritos a tese de René Sanferr, para quem “um homem inteligente nunca vai ser mentiroso”. Mentiroso é o burro que nunca vai ser inteligente”. Filosofia à parte, com o surgimento de um fracassado governante que se achava acima de tudo e de todos, a mentira ressurgiu repaginada e com nova nomenclatura: fake news.
“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Com essa frase, Joseph Goebbels, ministro de Propaganda de Adolf Hitler, resumiu para o chefe a consequência trágica de falsas notícias. Ameaças contemporâneas, o Facebook, o Instagram e o Twitter (ou o X, seja lá como queiram), entre outros mecanismos, foram utilizados largamente para o mal pelo dissimulado, fictício, ilusório e imoral Sargento Pincel, cuja grande obra foi se associar a hackers e, por meio deles, criar o termo hoax, que designa boatos compartilhados na internet com o objetivo de instigar as massas contra supostos inimigos. Exatamente o que fez Policarpo Quaresma, o tirânico personagem que acreditou fielmente que, superado o obstáculo denominado Luiz Inácio Lula da Silva, estaria livre para fazer o que bem quisesse com o Brasil.
Os casos de má informação ou de cobertura parcial da imprensa, conhecidos por “barrigada”, tiveram na Escola Base o exemplo mais cascudo de todos os tempos. Em 1994, por conta de fake news, os empresários Icushiro e Maria Aparecida Shimada, além da professora Paula Milhim Alvarenga e do motorista Maurício Monteiro de Alvarenga, foram injustamente acusados pela imprensa destemperada de abuso sexual contra alunos de quatro anos da escola. Em consequência da revolta da opinião pública, a escola foi obrigada a encerrar suas atividades logo em seguida.
Por absoluta falta de provas, o caso foi arquivado pelo promotor Sérgio Peixoto Camargo. Até hoje o caso é tema de estudos de faculdades e seminários de jornalismo, direito, psicologia, psiquiatria e ciências sociais como exemplo de calúnia, difamação, injúria e danos morais.
Fake news pode ser sinônimo de demonizar tudo que nos soa de forma contrária. Mais uma vez, reitero que não é mera coincidência qualquer referência àquele presidente que partiu para nunca mais voltar. Lembrar desse cidadão é rememorar um “fato” jornalístico que ainda causa ojeriza em quem o viveu. Refiro-me a um ex-diretor da revista Veja, responsável por uma infame e irresponsável campanha contra Lula da Silva. Conforme o escritor e blogueiro Antônio Mello, em uma de suas bravatas o tal “jornalista” acreditou numa pegadinha de 1º. de abril de uma publicação inglesa e destacou em sua revista (edição de 27 de abril de 1983), com direito a gráfico explicativo, uma experiência de dois biólogos da Universidade de Hamburgo, na Alemanha. Os cientistas teriam fundido células de tomateiro com as de um boi, criando o fantasmagórico “boimate”.
O desmentido só ocorreu em 11 de abril de 1984. Para sorte do Brasil, o “Erramos” do povo brasileiro ocorreu definitivamente em outubro de 2022, quando Luiz Inácio foi eleito para seu terceiro mandato presidencial. Nessa data a verdade do povo engoliu a mentira de um clã dominador, mas falido. E tudo pode se repetir em 2026.
Recentemente, em mais uma mancada da chamada grande imprensa, uma colunista do jornal O Estado de São Paulo informou que Lula havia interferido para um empréstimo de R$ 1 bilhão à falida Argentina para favorecer o candidato peronista Sergio Massa. Na verdade, conforme a ministra do Planejamento, Simone Tebet, a decisão do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF) foi colegiada e o dinheiro não era brasileiro. Solicitado em 28 de julho de 2023, o empréstimo foi quitado no dia 25 de agosto do mesmo ano. O “equívoco” ficou por isso mesmo.
É claro que nem todos seguem, mas a máxima do bom jornalismo é a boa apuração. A fase do sensacionalismo, das fofocas e das notícias falsas ficou lá atrás, mais precisamente no dia 31 de dezembro de 2022, véspera da posse de Lula. Não devo generalizar, mas, às vezes, a única coisa verdadeira em determinadas publicações é a data. É óbvio que, no mundo globalizado, o poder da informação é inegável. Dessa forma, é preciso filtrar o conteúdo vinculado em sites jornalísticos ou em redes sociais, de modo a não propagar mentiras.
De acordo com o escritor e humorista norte-americano Mark Twain, enquanto a verdade calça os sapatos, a mentira dá a volta ao mundo. Por isso, sigo os ensinamentos da filósofa alemã Hannah Arendt, para quem “o servo ideal de um governo totalitário não é o nazista convicto, mas pessoas para as quais a distinção entre e fato e ficção e entre verdadeiro e falso não existem mais”.
Tudo a ver com o que vivemos e que, graças aos céus, foi para o beleléu. Que as fake news de 2018 e 2022 virem new world em 2026. Notibras estará lá para repetir o feito de 2022 e transformar em verdade o que for dito de mentira. Deus é maior.
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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978
