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Vida sem valor vira jogo político e de bajulação

Antigo símbolo mundial da paz, do amor, da harmonia, da fé, da alegria, do futuro, samba e do futebol, o Brasil se transformou, em pouco mais de uma década, em país ultrapassado, de incertezas, tristezas e divisões de lutas insanas. Alcançamos o fundo do poço nos dois últimos anos. Em decorrência do ódio, da politicagem barata, do uso da vida como palanque eleitoral e, agora, do futebol como palanque e picuinha pessoal, estamos definitivamente fadados ao isolamento político, comercial e social. Infelizmente, na nação das carroças e das diligências não existe argumentos contra a cloroquina, a insensatez, o negacionismo, a mentira, as contradições do governo e a letalidade da pandemia.

Pelo menos para o presidente Jair Bolsonaro, para a doutora Nice Yamaguchi, para o general Eduardo Pazuello e, sobretudo, para os integrantes do inquestionável “gabinete paralelo” tudo que é dito, escrito, comentado, diagnosticado e comprovado sobre a Covid-19 é invenção de um grupo de cientistas e médicos tresloucados. Para eles, o pior é que essas doidices científicas encontram eco na não menos enlouquecida mídia brasileira, que, na avaliação bolsonarística, é paga para desqualificar o mandatário da nação. Não é nada pessoal, apenas funcional, mas de que modo qualificar o que não tem qualificação? Desde março do ano passado, quando o vírus se instalou e começou a matar, vivemos de confrontar o óbvio e a ciência com devaneios e pensamentos idílicos. De uma clara incapacidade de gerenciamento, atingimos o ápice da irresponsabilidade e da marcha negacionista.

Depois de minimizar a doença, adjetivar o vírus, culpar a China, repudiar a vacina, receitar medicamentos ineficazes, criticar cientistas e negar as mortes, a fantasia alucinógena da vez é escamotear as novas variantes, fazendo delas apenas mais um delírio demente. Defendo o direito ao delírio, mas, se oficializarmos essa tese, teremos de nos preparar com rapidez para uma eventual invasão de marcianos vestidos com uniformes dos clubes brasileiros de massa. E deveríamos ter pensado nisso antes mesmo de brigarmos para sediar mais uma Copa América politizada e recheada de ranço e de Covid. Ao confirmar o torneio da morte no Brasil, Bolsonaro agrada a Silvio Santos, ao primeiro genro, o deputado Fábio Farias, e imagina ter atingido a TV Globo, que, por questões puramente comerciais, havia perdido os direitos de transmissão da Copa América para o SBT. É pensar muito pequeno e agir menor ainda.

Herdamos uma competição que os demais nove países do continente não quiseram sediar. Todos temem o corona. Aliás, o vírus da morte também pode ser rebatizado de vírus da mentira, da blindagem e da bajulação. É o que vem ocorrendo na CPI, onde raríssimos depoentes não conseguiram tirar do sério os senadores preocupados em apurar as ações e omissões do governo no combate e controle da pandemia. Antes da cientista Nice Yamaguchi disfarçar as evidências, banalizar informações sérias e ter sua capacidade científica questionada, o ex-ministro Eduardo Pazuello passou recibo ao negar tudo que o Senado, o Brasil, ele próprio e qualquer menino de jardim de infância conhecem como verdades inquestionáveis. O objetivo de ambos foi o mesmo: bajular e blindar o chefe Jair Bolsonaro.

Yamaguchi ainda terá de participar de passeios de motos para se cacifar, mas Pazuello já recebeu seu quinhão. Ameaçado pela cúpula do Exército desde o motomício do Rio de Janeiro, foi promovido antes de ser punido. Funcionalmente deixou de ser responsabilizado e acabou sendo premiado. Mesmo general da ativa, conseguiu um novo salário de R$ 16 mil na Secretaria de Assuntos Estratégicos, órgão ao qual deve “emprestar” os conhecimentos que não conseguiu mostrar na pasta da Saúde. Caiu para cima, mas não deve se livrar de uma carraspana corporativa pela quebra de uma regra militar. Se isso não ocorrer, o Exército corre o risco de abrir um precedente perigoso e irrecuperável de insubordinação.

Quanto ao ex-ministro, autor do célebre meme “um manda e o outro obedece”, parece que o ato político que o Brasil inteiro viu e só Bolsonaro e ele negam teve o dom de incluir novo verbo à frase. Depois da promoção, o texto a ser divulgado deve ser “um manda e outro obedece e agradece”. O resumo da ópera é simples, assim como no futebol, onde a bola pune os pernas-de-pau, o eleitor pune os maus governantes, principalmente aqueles que, independentemente da morte, insistem em fazer jogadas políticas com a vida. Lembrando os inesquecíveis 7 a 1 da Alemanha, nada é mais somente um detalhe na cabeça dos eleitores.

Por exemplo, as respostas que todos esperam do governo ainda não vieram a público. A quem interessa ou o interessou o derramamento da tese de que a cloroquina cura Covid? De quem foi a ideia? Quem faturou com o remédio da mentira? Parceiros de Nice Yamaguchi e de Eduardo Pazuello nos acenos bajulatórios, os oferecidos governadores Ibaneis Rocha (DF), Cláudio Castro (RJ), Ronaldo Caiado (GO) e Mauro Mendes (MT), que aderiram ao novo sonho macabro do presidente, também terão de se explicar em breve à ciência e no futuro aos eleitores. Bajulação explícita é igual a sexo na rua: é barato, mas todo mundo vê e acaba manchando ainda mais a imagem de quem já não a tem.

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