Seguindo a teoria do pensador romano Marco Túlio Cícero, prefiro o testemunho de minha consciência às opiniões alheias. Para o mesmo Cícero, a gente sempre deixa de cuidar do que já tem na mão. Embora tenha vivido há séculos, o pensador parece ter cunhado suas teses pensando no Brasil disputado por Luiz Inácio, à esquerda, e pelo clã Bolsonaro, à direita, mais precisamente à extrema-direita. Como a história presente normalmente é testemunha do passado, minha comparação entre os dois políticos se assemelha aos experimentos diários dos enólogos.
Esses profissionais são pagos para, após apurada análise, atestar sobre a qualidade dos vinhos. Eu não tenho conhecimento técnico-científico a respeito do tema. Entretanto, com base no que temos à mão, posso afirmar que os vinhos são como os políticos: os ruins e os mal-intencionados azedam com o tempo. Já os bons, quanto mais envelhecidos, essenciais, maduros e sem segredos, mais apurados ficam e mais bem avaliados são. Na atual política brasileira, guardado o prazer da metáfora, o grande problema é que, às vezes, muitos são bons demais com as pessoas erradas.
Não escondo minha concordância com aqueles que torcem pela extinção física e social de todos os corruptos, sejam eles de direita, de centro ou de esquerda. Afinal, é triste viver em um país com maioria de políticos corruptos. Tristeza maior é saber que grande parte de seu povo apoia e tem como líderes esse tipo de gente. Sei que sou apenas a tristeza que fui ontem e que sou hoje, mas jamais deixarei de lamentar a perda dos valores, da alegria e, principalmente, da essência dos seres humanos, notadamente dos brasileiros.
Lamentavelmente, o Brasil de ontem, de hoje e de amanhã sempre será um celeiro de corrupção. Azedamos! Talvez não nos recuperemos mais do vinagre. Ficamos mais perigosos, preconceituosos, raivosos, desonestos, radicais e, em algumas situações, até criminosos. Se acham exagero de minha parte, sugiro uma viagem simbólica pela Praça dos Três Poderes do dia 8 de janeiro de 2023. Enlouquecidos pela ideologização da política partidária, atualmente a maioria de nós se utiliza de apenas dois conceitos para defesa de determinadas causas: a hipocrisia e o interesse próprio.
Não escolho os vinhos pelo rótulo, pelo tipo de uva, tampouco pela região onde são produzidos. Para mim, produto bom precisa de boa maturação. Melhor ainda são aqueles que, mesmo oriundos de vinícolas populares, não dormem nas prateleiras. Comparando a bebida do deus Baco com os homens públicos que se apresentam para ocupar o Palácio do Planalto ou o Congresso Nacional, vale lembrar que, independentemente da campanha mentirosa que um faz do outro, a impopularidade obtida ao fazer o que é certo não é impopularidade, mas glória.
Não sei me faço entender, mas o surgimento de algumas nuvens escuras não me impedirá de olhar para o céu com orgulho e sem lampejo algum de fanatismo. Lembro também que somente o povo unido será capaz de fazer do Brasil uma grande nação. Os políticos desonrados pelo mal da corrupção e do poder só atrapalham. Não custa repetir para os que optaram pela desconexão da realidade que o fanatismo político arrasta para a miséria da liberdade e do respeito todos os que se imaginam lutando por dias melhores. Tenho minhas convicções, mas não trato meu escolhido como celebridade, pois nunca aceitaria ser tratado como gado.
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Misael Igreja é analista de Notibras para assuntos políticos, econômicos e sociais
