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Vorcaro tem fósforo, pólvora e motivos para implodir a República

Há homens que acumulam poder. Outros acumulam silêncio. Daniel Vorcaro parece ter acumulado os dois. E, quando isso acontece, a República costuma suar frio.

O banqueiro do Banco Master, hoje reduzido à condição elegante de dono de uma massa liquidada — expressão asséptica para o que, na vida real, cheira a falência — não é um aventureiro. Ao contrário. Sua trajetória meteórica no sistema financeiro brasileiro não se constrói com ingenuidade, nem com descuido. Vorcaro é inteligente. E, acima de tudo, precavido.

Quando percebeu que algo poderia explodir em seu colo, sua primeira providência não foi pedir socorro. Foi comprar uma caixa de fósforos. Um gesto simbólico, quase didático, para mostrar que, quem tem pólvora, cuida do pavio. E pólvora, ao que tudo indica, não falta.

Uma retrospectiva mínima do imbróglio envolvendo o Banco Master desenha um cenário inquietante. Não é apenas um banco em colapso. É um sistema de relações, contratos, encontros fora de agenda, parentescos profissionais e coincidências financeiras que fariam corar qualquer manual de ética republicana. Isso, claro, se ainda houver algum em circulação.

Convém lembrar o óbvio, já que o óbvio anda em falta. Aprendemos que uma República séria se sustenta na ética, na transparência, na igualdade perante a lei e na primazia do interesse público sobre o privado. República é coisa pública. O que não suporta a luz do dia não é republicano. É outra coisa. Geralmente menos nobre.

Diante disso, como brasileiro que ainda insiste em defender a democracia como o regime da responsabilidade, começo a cultivar dúvidas nada discretas. Não por convicção ideológica, mas por instinto de sobrevivência institucional.

O que se sabe — e o que se nega com igual intensidade — sobre o Banco Master já seria suficiente para acender alertas. Vorcaro diz uma coisa. Outros desmentem. E nesse pingue-pongue retórico, o que mais inquieta não é o que foi dito, mas o que ainda não foi. Porque há um momento decisivo em toda crise. É o instante em que alguém resolve abrir o bico. Se isso ocorrer, dificilmente sobrará pedra sobre pedra.

O fato de pedras rolarem como cabeças não é força de expressão. Vorcaro se assemelha cada vez mais a um homem-bomba envolto em várias ogivas. Basta uma detonação mal calculada para que a República, já fragilizada, imploda em segundos, levando consigo algumas de suas estrelas mais cintilantes.

Os exemplos que orbitam o caso não são exatamente tranquilizadores. Fala-se em contratos milionários envolvendo o Banco Master e o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes. Fala-se em negócios imobiliários de lazer que teriam unido executivos do banco à família do ministro Dias Toffoli. O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, anunciou em dezembro, de forma estranhamente irredutível, que deixaria o governo em janeiro. Agora surge a informação de que um filho seu teria recebido 5 milhões de reais para assumir uma das causas de Vorcaro.

Coincidências existem. Mas, quando se acumulam, passam a exigir explicações. Um exemplo claro vem do próprio presidente Lula que, no fim de semana, atacou Vorcaro em público. Logo depois, vazou — sabe-se lá por qual fogo amigo — a notícia de um encontro extra-agenda entre os dois. E, como se não bastasse, surgem rumores sobre a saída de Fernando Haddad, o todo-poderoso da economia, para coordenar uma campanha que, desde já, parece mais um exercício de contenção de danos do que um projeto político vibrante.

Nomes como Rui Costa, Jaques Wagner e Jerônimo Rodrigues começam a surgir nesse emaranhado de perguntas sem respostas. No Congresso, uma interrogação grita mais alto do que as outras: por que o PT resiste tanto à CPI do Banco Master? Um detalhe estranho, porque quem não teme a verdade não costuma temer investigações.

O fato é que sente-se paúra no ar quando o assunto é Banco Master. Não é paranoia. É percepção política. Algo não fecha. Algo range. Algo ameaça explodir. E em pleno ano eleitoral. Com um eventual Lula 4 já cambaleando antes mesmo de nascer, brincar de empurrar pólvora com fósforo curto parece uma aposta temerária. Se Daniel Vorcaro decidir riscar um único palito, o Brasil descobrirá, tarde demais, que não era apenas um banco que estava em liquidação. Era a própria ideia de República que estava em saldo promocional.

E isso, convenhamos, não é um detalhe contábil.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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