Mesmo descrente, comprei ingresso para a sessão do quebra-pau

Redação
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Quem escolhe acreditar no que lhe convém, se arrisca a viver só de mentiras. Por um lado, é bom, porque elas, as mentiras, às vezes são menos nocivas do que as convicções. Sobre o Supremo Tribunal Federal, eu não sei mais em quem acreditar. Por outro lado, é ótimo, pois já é um bom começo para se chegar à certeza de que, a exemplo dos políticos, na magistratura superior não existe mais a velha diferença entre o bom e o ruim, entre o melhor e o pior. Os fatos, as fotos e, sobretudo, os diálogos mostram que são todos igualmente ruins. Quanto às exceções, preciso redescobri-las.

Diante da melodramática trombose que afetou a veia femoral de parte das excelências da Corte, me vejo na obrigação de imaginar uma nova história para o Supremo dos meus tempos e acreditar nela. Talvez eu opte definitivamente pelo Código Samurai, que sugere que eu acredite na justiça, mas não na que emana dos demais ou dos ministros do STF, mas na minha própria justiça. Me valendo dos aconselhamentos do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, minha mágoa não se limita às mentiras dos atuais homens de toga.

Como não há mais os dois pesos (do bem e do mal), o sentimento é o de não poder voltar a acreditar no que dizem, muito menos no que escrevem. Como tudo que sai da boca e da lavra dos ministros envolvidos com o tenebroso escândalo do Master é duvidoso, a tendência é que eu e pelo menos dois terços dos brasileiros acreditemos em tudo que estão dizendo de Alexandre de Moraes, de André Mendonça e de Dias Toffoli. Com todo respeito, de Edson Fachin não sei mais o que dizer.

O que sei é que, assim como não acreditar em nada, é arriscado acreditar em tudo que falam a respeito do STF. Na dúvida, conclui que, se eu acreditar em mim, o resto é detalhe. Houve um tempo em que a verdade dos ministros do Supremo era incontestável. Afinal, só os de conduta ilibada e alto saber jurídico alcançavam tão sublime e honroso posto. Nós, os mortais, víamos os ministros fantasiados com suas impecáveis togas e pensávamos se tratar de deuses. Eles não pensavam, tinham certeza de que eram.

O tempo passou e, hoje, as excelências lembram os fantasmas que nos paralisam. Por isso, luto internamente para voltar a acreditar na lisura, na competência e na imparcialidade dos votos que diariamente os senhores de toga produzem. Tudo bem! É um dever patriótico crer. Todavia, se me permitirem, acreditarei sempre que estiver armado. Apesar do ceticismo, nunca deixarei de acreditar que, em algum lugar, alguém merece minha aristotélica confiança. Onde? Onde? Quem?

Diante do descrédito do Supremo de 2026 e das acusações de parte à parte, resta entrar na fila da internet para comprar um ingresso para a sessão especial da próxima terça-feira, dia 15, data da sessão especial de reabertura solene da Corte. Será o dia em que tudo pode acontecer, mesmo um final feliz. Talvez um harakiri coletivo. Se todos estiverem vivos até lá, é claro. Como também não confio nas igrejas evangélicas, nos padres conservadores, deputados, senadores e no síndico do meu prédio, ainda que de olhos fechados, até lá me recolherei no cabaré de Tia Noca, onde, depois dos verbos, predicados e substantivos e advérbios citados pelos ministros do STF, qualquer sujeito é feliz.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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