Quando me vejo sentado naquele banquinho de madeira, um banquinho com pouco mais de um palmo de altura, tendo a meu lado o carrinho com vassoura, pá, peneira, ancinho e rastelo, sei que o mundo em que estou prestes a entrar é diverso daquele de um dia comum. Um momento mágico, de entrega, onde meu espírito irá sair do silêncio, levando meu pensamento em direção a tudo o que em essência é diverso do rotineiro.
Revirar a terra do jardim é bem mais do que parece ser. É oportunidade, é contato que mexe com a alma. O cheiro, a terra na mão, o sulco que o ancinho faz expondo as entranhas da terra. Remover o mato bravo é como arrancar um peso de mim mesmo, enfim, tudo é mágico, incomum e renovador.
É uma oportunidade onde me vejo humilde, com as mãos sujas e o suor a escorrer em minha face. Os pensamentos que fluem durante essa entrega ficariam guardados se dessa forma eu não me desse, quem sabe nunca viessem a fluir, ocultos, sabe-se lá por onde.
É no roçar, no balanço da peneira, durante a separação entre terra e mato, que a mente viaja e o pensamento flui.
A escrita travada se liberta tornando-se poesia.
E se assim se dá, é porque, por vezes, quando escrevo,
o pensamento me escapa,
vai-se farto de mim,
mas eu respeito seu tempo.
Ele então volta,
como volta o sapo do meu jardim.

