Amanhã

Eduardo Martínez
1 minutos de leitura
Luzia Couto - Foto Francisco Filipino

Quem sabe amanhã

E o que faço agora, amor, deste oceano de saudade

que me invade como maré alta sob a lua cheia?

Este tumulto doce de te recordar,

do sabor de açaí maduro em tua boca,

puro, silvestre, que ainda queima na minha?

Talvez amanhã o vento leve teu nome…

hoje, porém, é tarde demais para a maré baixar.

Tuas mãos, firmes como âncoras de seda,

desvendavam os caminhos secretos do meu corpo.

Sob o peso quente da tua pele, o meu se arrepiava,

latejava, se contorcia em ondas de desejo puro,

sobre o leito de algodão e renda,

onde o tempo se dissolvia em suspiros.

Talvez amanhã eu diga “nunca mais te quero”

e ri, leve, deste sentir tão dilatado

que hoje me habita por inteiro,

como vinho antigo escorrendo pelas veias.

Mas o amanhã ainda é apenas brisa tímida

que se insinua entre as cortinas da noite.

É crença frágil, sonho de cristal e poesia,

a vaga promessa de um dia sem o peso

nem a perfumada lembrança de ti.

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