Vento muda e coloca pontos nos ‘is’ do Supremo

Redação
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Mathuzalém Júnior, Foto Valter Campanato

Independentemente do assunto em discussão, os ignorantes normalmente exageram mais do que os inteligentes. Tema sensível e cada vez mais infestado de pessoas que usam a intolerância como forma de vida, a política me obrigou a reavaliar determinados posicionamentos, entre eles o da superioridade intelectual. Não sou mais e nem menos. Na verdade, me encaixo no meio termo, pois sempre acho que, mais importante do que descobrir os defeitos alheios, é tentar descobrir quem de fato errou. O avanço da crise no Supremo Tribunal Federal mudou o rumo dos ventos do Sul e do Sudeste.

Com isso, a tendência é que os pingos comecem a ser colocados nos devidos is. Entre os mais ferrenhos simpatizantes da direita e da extrema-direita, a norma é colocar os da esquerda no mesmo balaio da ladroagem, da corrupção e do parasitismo político. Considerando, que, em matérias e opiniões políticas, os crimes de um tempo podem ser virtudes em outros, é mais fácil estereotipar pessoas ou grupos, notadamente os adversários, do que categorizar aliados reconhecidamente de origem e conduta duvidosas. É aquela velha tese filosófica de que, às vezes, as paixões tiranizam a razão.

O fato é que, em se tratando de nunca qualificar os parceiros e afins de ruins, os homens, com a naturalidade de uma esfinge, fingem desinteresse nos erros dos iguais para melhor promoverem seus interesses. Para sorte dos sérios, corretos e tolerantes, o recente escândalo de omissão ativa e deliberada daquele que se dizia acima de qualquer suspeita está documentado, desmontou versões bolsonaristas sobre o dinheiro de Vorcaro e ajudou a tirar o injusto peso que haviam colocado sobre os ombros do presidente que raivosos desejam ver fora do circuito político.

Perdão pelo trocadilho, mas tudo indica que, apesar da proximidade da primavera, nunca verão. Como tenho um lado, é necessário informar aos moucos quem é quem nessa barafunda vorcariana. Basta se ater às verdades das investigações da Polícia Federal para concluir que foi Flávio Bolsonaro e não Luiz Inácio quem recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro. O ex-dono do Master pagou terno para o ministro André Mendonça e não para Lula da Silva. O jatinho pago pelo banqueiro serviu ao deputado Nikolas Ferreira e não ao líder do petismo.

Para os esquecidos, a mesada mensal liberada por Vorcaro ia para os bolsos do senador Ciro Nogueira e não para a conta do representante da esquerda. Por fim, não foi Luiz Inácio Lula da Silva quem deixou Daniel Vorcaro meter a mão no Banco Regional de Brasília. Tomara que chegue logo o dia em que os que se ocupam com os defeitos dos outros passem a se preocupar prioritariamente com os seus. Quem sabe nesse dia o cidadão brasileiro consiga ser livre para pensar, discernir e assumir as consequências de suas escolhas.

Como dois e dois, a história confirma que não devemos ser conduzidos pelo ruído das paixões, pela intolerância ou pelas aparências, mas pela serenidade de quem compreende que a boa escolha individual é fundamental para a construção do destino coletivo. A independência de uma pátria começa na independência da consciência de seu povo. Lembrando que o futuro é como o papel em branco, nele podemos escrever e desenhar o que queremos. Meu desenho é abstrato, mas tem tudo a ver com o fisiológico número 2. Fazê-lo duas vezes, isto é, votar no 22, é a prova evidente de que há muita gente infeliz por não saber tolerar com resignação sua própria insignificância.

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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