Uma vez me disseram que nós somos realmente especiais apenas no dia de nossas núpcias e nos aniversários.
Há muitos anos eu não me sinto especial no dia dos meus aniversários. Antes sim, quando era menina. Ganhava presentes, minha avó me dava sempre um dinheirinho, que eu guardava num cofre no fundo do armário. Às vezes, minhas primas iam me visitar e comíamos bolo, bebíamos guaraná gelado.
Até que eu cresci, minhas primas foram se casando, minha avó morreu e ninguém mais se animava a comemorar meu aniversário.
Eu me casei há muito tempo. O casamento durou pouco, e nem lembro mais direito como foi aquele dia. Só me recordo de meu pai reclamando da demora para o início da cerimônia, muito simples, na igreja, e do meu noivo cheirando a loção após-barba. Ele sempre tinha esse cheiro.
Eu não o amava tanto, mas ele era bom para mim, até o momento em que optou por outra e me deixou para sempre. Talvez, se eu tivesse me esforçado mais, ele não tivesse me trocado.
Fiquei sozinha, numa cidade distante de minha família.
Mas venci. Trabalhei muito e até terminei os meus estudos. A última parte do ginasial eu fiz de noite, com os adultos, numa escola perto da minha casa.
Ali conheci Rogério.
Ele era viúvo, tinha os filhos crescidos e regulava em idade comigo. Nos demos sempre muito bem e, quando percebi, ele estava praticamente morando lá em casa. Mantinha a casa dele, mas passava a maior parte do tempo comigo, e eu gostava.
Ele eu sei que me amou de verdade.
Era devotado, me tratava bem. Dizia que queria ficar velhinho comigo e aproveitar a vida depois que se aposentasse.
Foi a pessoa que mais amei neste mundo.
Mas ele teve uma doença repentina e não durou um ano. Cuidei dele até o final. Os filhos mal apareciam para vê-lo, e tive até dificuldade de avisá-los no dia em que ele fez a passagem. Ele era espírita e gostava de dizer assim: “fulano fez a passagem”.
Quando Rogério morreu, eu me vi novamente sozinha.
Mas nunca havia experimentado aquele tipo de solidão.
Apavorou-me a ideia de que, se eu morresse sozinha na minha casa, talvez levassem dias para notar.
Eu nunca havia tido relações muito fortes depois que fiquei mais velha. Os vizinhos da rua eram apenas conhecidos. Depois que me aposentei, não frequentava nenhum lugar, a não ser a igreja, onde ia eventualmente e ajudava em uma ou outra obra social.
Mas não chegara a fazer amizades.
Era uma solitária.
Minha vida acabou sendo banal.
Um dia, me peguei pensando que, depois que eu desaparecesse do mundo, minhas coisas teriam um destino incerto.
Até o mais ínfimo objeto da minha casa, o menor e mais sem importância, acabaria esquecido, perdido, dado a alguém ou jogado fora. Tudo que era meu, tudo que eu tivesse tocado, iria desaparecer também.
Fiquei lembrando da minha infância, na cidade do interior onde morava.
Da época em que eu acordava cedo para ver o carro de boi passar cantando debaixo da minha janela.
Do meu tio Ângelo, dono da mercearia da esquina, alisando a barba na porta do estabelecimento, com aquele cigarrinho fino na piteira que ele sempre trazia na mão.
Da Josefa, que era meio irmã de criação de minha mãe, tinha uma perna mais curta que a outra e tossia muito.
E até do padre Amaro, que fazia bonitos sermões nas missas de domingo.
Como essa gente havia desaparecido, eu iria desaparecer também.
E não havia quase nada que lembrasse essas pessoas.
Talvez ninguém além de mim.
Estou exagerando.
Tio Ângelo teve seis filhos, o padre Amaro virou até nome de rua na minha antiga cidade, e a Josefa… Bem, da Josefa sobrou um retrato ao lado de minha mãe e minhas tias, que eu acho que minha prima Dorinha deve ter guardado. Além da cruz de ferro na campa do cemitério onde foi enterrada.
Essas pessoas, e mais outras que haviam passado por minha vida, eram, de certa forma, eternas.
Viviam na minha lembrança.
E me davam muitas saudades.
O que eu queria, na verdade, era ter uma coisa física para lembrar de cada uma delas.
Quem me dera ter a piteira do tio Ângelo. O livro de rezas da Josefa. Um crucifixo qualquer que tivesse pertencido ao padre Amaro.
Onde andariam os objetos que foram deles?
Será que algum ainda existia?
Andei indo a uma feira aqui perto de casa. Uma feira que não vende só coisas de feira, mas onde acontece aquele comércio geral de objetos, uma variedade tão grande que nem dá para listar.
Fiquei andando ao acaso, prestando atenção nas barracas, nos pregões dos vendedores, nas pessoas que paravam para negociar uma compra.
Um rádio quase novo, uns discos antigos, uma ferramenta qualquer ainda na caixa.
Numa das esquinas, sobre uma lona azul estendida no chão, um homem dispunha vários objetos pela calçada e ficava em pé, ao lado, esperando que algum freguês se interessasse.
Ali, junto às coisas espalhadas sem formar qualquer conjunto, reparei numa piteira.
Bem parecida com aquela que meu tio Ângelo sempre trazia entre os dedos.
Ele deixava o cigarro nela mais queimando do que sendo tragado. De vez em quando levava a piteira à boca, baforava e tornava a coçar a barba bonita, bem aparada.
Perguntei:
— Quanto é essa piteira, moço?
— A senhora leva por 25 reais.
Ofereci 15 e acabei levando por 20.
Achei cara.
Mas peguei aquela piteira como se fosse uma relíquia. Como se eu a estivesse recebendo das mãos do meu próprio tio, que era tão bom para nós e sempre vendia fiado para meu pai nas épocas de dureza, e depois se esquecia de cobrar.
Coloquei a piteira na bolsa.
Quando voltei para casa, pus num lugar de destaque na estante.
Ninguém iria perguntar, mas, se perguntasse, eu diria que aquela piteira era uma relíquia de família. Uma lembrança de um bom tio.
Voltei outras vezes à feira com a ideia de comprar objetos que se tornariam lembranças daquelas pessoas amadas.
Comprei, depois de muito negociar, um relógio de bolso que atribuí ao padre Amaro. Cheguei a imaginar o velho sacerdote regulando naquele relógio a hora em que ia começar a se paramentar para a santa missa, ou olhando os ponteiros antes de sair para dar algum sacramento.
Achei também um rosário de lindas contas de vidro, que brilhavam sob a luz do sol.
Era certinho o gosto de Josefa.
Um dia, vi um álbum de retratos perto de uma mala velha de couro e fiquei folheando suas páginas.
Era uma gente antiga, bem vestida. Via-se que eram gente de posição.
O dono da barraca disse que vendia o álbum inteiro ou alguma fotografia solta de que eu gostasse, por poucos reais.
Acabei levando o álbum inteiro.
Em casa, passei muito tempo olhando aquelas pessoas.
O homem de bigode enorme, de roupa militar e sentado numa cadeira de espaldar alto seria meu avô Francisco, que, segundo eu soubera, fora soldado em algum lugar no Rio Grande do Sul.
A mulher velha com leque seria minha avó Benedita, que tinha muitas terras em Minas.
A moça de traços finos, com vestido leve, fotografada ao lado de um abajur, seria minha tia Dorotéa, que morreu nova, embora a moça da fotografia tivesse os traços mais delicados e a pele bem mais clara do que minha tia, que era quase uma índia.
Havia também um menino de roupa de marinheiro que eu não sabia quem poderia ser.
Fiquei olhando para ele por algum tempo.
Resolvi que seria um primo de minha mãe, morto ainda criança. Ninguém nunca tinha me falado de primo nenhum, mas achei que toda família podia ter uma criança morta de quem, depois de tantos anos, ninguém mais se lembrava.
E fui fazendo isso com os outros.
Dando nomes.
Inventando parentescos.
Lembrando histórias que nunca tinham acontecido.
Depois coloquei o álbum na estante, perto do relógio do padre Amaro, do rosário de Josefa e da piteira do tio Ângelo.
Às vezes sento diante da estante e fico olhando para aquelas coisas.
Sei que nada daquilo pertenceu a eles.
Mas, quando olho a piteira, lembro do meu tio.
Quando pego o rosário, vejo Josefa andando devagar, por causa da perna mais curta.
Quando abro o álbum, meu avô Francisco está novamente sentado, muito sério, com sua roupa de soldado.
Talvez seja assim que as pessoas continuem existindo.
Não sei.
Outro dia pensei no homem que vendeu aquele álbum.
Talvez aquelas pessoas também tivessem sido parentes de alguém. Talvez alguém as tivesse conhecido pelo nome, soubesse onde moravam, do que gostavam, quem amaram, quem enterraram.
Agora estavam comigo.
E eu tinha dado a elas outros nomes.
Pensei então nas minhas coisas.
Um dia, minha piteira, meu rosário, minhas fotografias e tudo o que existe dentro desta casa talvez também vá parar numa feira.
Alguém poderá pegar uma fotografia minha, olhar bem para o meu rosto e dizer:
— Essa aqui vai ser a tia Amélia.
E achei que não seria tão ruim.
Pelo menos eu ainda seria tia de alguém.
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Daniel Marchi é poeta, contista, advogado e professor universitário no Rio de Janeiro. Editor do Café Literário e fundador da Editora Fava, é autor de A Verdade nos Seres (poesia, 2024) e Território do Sonho (contos, 2026). @prof.danielmarchi

