Quase dilúvio

Eduardo Martínez
2 minutos de leitura
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Chuva. Está chovendo há dias. Três, quatro, trinta? Que até as plantas já não aguentam. Daqui a pouco, todos morreremos afogados.

— Desde quinta passada, senhor Afrânio. Não se lembra?

Carlos, o porteiro, me colocou a par da situação. E desde quando me importo se começou quinta, sexta, o escambau? Aposentado! Que todos os dias se transformem em uma eterna segunda-feira. Quero mais é ver a cara do povo nos pontos de ônibus. Tudo lotado, e eu livre, leve e solto. Mas essa chuva…

— Afrânio, eu adoro esse barulhinho gostoso. Dá aquela vontade de dormir.

Zélia, a vizinha do 608. Que vá arrumar algo para fazer. Nessa idade, por que não morre? Isso me livraria do barulho dos netos da velha. Aquelas pestes só provocam algazarras.

Preciso entrar no regime ou comprar roupas novas. Essas já não me cabem. Chuva. Tudo culpa dessa maldita chuva. Ficar em casa atiça a gula. Um pãozinho com manteiga, uma bicada no café com leite. E para quê? Só engordo, engordo e nada mais. Não há dieta que resista a essa chuva. Já deu, São Pedro!

— Senhor Afrânio, deu no rádio que vai até o final de semana.

Carlos novamente. Antes fosse cuidar da portaria em vez de ficar ouvindo notícias inapropriadas.

— Tem certeza?

— É a previsão. Talvez avance um pouco durante a semana.

— Hum! Chega! Já deu!

Por pouco não mandei o Carlos para as cucuias. Mandei, mas em pensamento. Já deu, São Pedro. Já deu!

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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