O BRB continua organizando praticamente toda a agenda política do Distrito Federal, mas a crise amanhece nesta sexta-feira num estágio diferente. Depois de entrar de vez na campanha com o confronto entre Lula e Celina Leão, o banco passou a mobilizar também atores que até aqui permaneciam à margem da disputa. Entidades do setor produtivo pedem diálogo e uma solução técnica, enquanto o GDF leva ao Supremo as declarações feitas pelo presidente no comício de Ceilândia.
A mudança é importante porque embaralha ainda mais as fronteiras entre campanha, crise financeira e relação institucional. Lula afirma que o governo federal não colocará dinheiro no BRB; Celina responde que não está pedindo dinheiro, mas aval para uma operação de crédito, e usa a fala presidencial para sustentar no STF sua tese de que a resistência da União teria natureza política. Essa é uma alegação do GDF, não uma conclusão judicial.
Enquanto a política aumenta o volume, os problemas objetivos continuam onde estavam. O banco ainda precisa dimensionar com clareza as perdas relacionadas ao Master, publicar demonstrações financeiras pendentes e encontrar uma estrutura viável de capitalização. Relatório do Banco Central divulgado nesta semana apontou perdas potenciais de R$ 11,4 bilhões relacionadas às operações com o Master, valor superior ao que vinha sendo considerado pelo governo local.
É essa distância entre o barulho da campanha e a necessidade de uma solução concreta que passa a definir o momento. O BRB deixou de ser apenas uma crise do governo e tornou-se um problema político, financeiro e institucional do Distrito Federal.
A Procuradoria-Geral do Distrito Federal comunicou ao ministro Luiz Fux as declarações feitas por Lula em Ceilândia e incorporou o episódio à ação que discute a operação de até R$ 6,6 bilhões destinada ao BRB.
O argumento apresentado pelo GDF é que a fala do presidente reforçaria a interpretação de que a resistência federal à garantia pretendida teria natureza política. O governo local enfatiza que não pede transferência de recursos da União, mas uma garantia para viabilizar a operação de crédito.
A questão agora fica mais delicada porque uma divergência que vinha sendo conduzida tecnicamente entre GDF, União, Banco Central, FGC e BRB ganhou conteúdo eleitoral explícito. Fux já havia aberto espaço para manifestações dos envolvidos e a nova petição adiciona a fala presidencial ao processo.
Ademi-DF, Asbraco, Codese-DF, Fecomércio-DF e Sinduscon-DF divulgaram manifestação conjunta defendendo diálogo institucional e cooperação para preservar o BRB.
A entrada dessas entidades merece atenção. O movimento não resolve o problema financeiro, mas demonstra preocupação de segmentos econômicos com a possibilidade de a disputa eleitoral contaminar a construção de uma saída para o banco.
O argumento central é que o BRB tem papel estrutural no crédito, no financiamento da atividade econômica e na execução de políticas públicas do Distrito Federal. O setor produtivo tenta, portanto, estabelecer uma linha divisória: responsabilidades devem ser apuradas, mas a sobrevivência e a estabilidade da instituição não deveriam depender da temperatura da campanha.
Por baixo do confronto político permanece a parte mais difícil. Relatório do Banco Central divulgado nesta semana apontou perda potencial de R$ 11,4 bilhões relacionada às operações do BRB com o Banco Master.
A Polícia Federal, em investigação ainda em curso, identificou operações envolvendo aproximadamente R$ 17 bilhões em créditos adquiridos do Master e suspeitas sobre parcela expressiva desses ativos. O BRB afirma ter sido vítima das irregularidades, informa que substituiu os dirigentes envolvidos e busca recuperar recursos.
As investigações precisam separar responsabilidades individuais, decisões administrativas e eventuais crimes. Politicamente, porém, o tamanho dos números explica por que o assunto não desaparecerá com facilidade da campanha.
A presença do STF deixou de ser periférica. O ministro Luiz Fux conduz a discussão judicial relacionada à operação pretendida pelo Distrito Federal e agora recebe também o confronto político entre o governo local e o presidente da República.
Esse é provavelmente o ponto institucional mais sensível desta sexta-feira. Uma eventual solução para o BRB precisará conviver simultaneamente com as investigações sobre o passado do banco e com a urgência financeira do presente. A judicialização acrescenta uma terceira camada a uma equação que já era complicada.
Depois do comício de quarta-feira, não há mais dúvida de que o BRB será explorado eleitoralmente. Lula colocou a crise no centro de seu discurso de apoio a Leandro Grass e atribuiu responsabilidades políticas ao grupo que governa o Distrito Federal. Celina respondeu deslocando o debate para a defesa institucional do banco e para a relação entre GDF e União.
São duas narrativas distintas sobre o mesmo problema. A oposição procura ligar a crise às decisões tomadas durante os governos de Ibaneis Rocha e Celina. O governo local procura separar a responsabilização pelas operações investigadas da necessidade atual de preservar o banco.
O fato concreto permanece entre as duas versões: o BRB precisa de uma solução financeira independentemente de quem vença a eleição.

