Roma conheceu uma Otávia. Brasília ganhou outra. Entre elas há mais de dois mil anos, alguns impérios destruídos, milhões de histórias de amor terminadas antes da hora e uma certeza, que atravessou intacta os séculos, de que existem mulheres que não precisam levantar a voz para alterar a temperatura de uma sala.
Otávia Kilvia é uma delas. Se a primeira Otávia caminhava entre colunas de mármore, senadores, generais e conspiradores, esta prefere Águas Claras, onde torres de vidro e concreto parecem disputar espaço com o céu de Brasília.
Mas, conhecendo-a, desconfio que houve algum engano mitológico em sua chegada. Otávia, a nossa Tatá, não nasceu para ser apenas personagem da paisagem brasiliense, porque mostra na voz, do brilho dos olhos e no corpo, ter qualquer coisa de semideusa desgarrada do Olimpo.
Talvez Afrodite tenha cochilado, ou, quem sabe, Nefertiti tenha deixado escapar algum segredo. Porque há em nossa amiga aquela beleza que primeiro chama o olhar e depois o obriga a permanecer.
Não é preciso sequer explicar demasiadamente a sensualidade, porque isso seria perder metade do encanto. O lado sensual de Otávia mora justamente naquilo que não se revela por inteiro. Seja no movimento distraído dos cabelos, na segurança do passo, na maneira de cruzar uma sala, no sorriso que surge sem aviso e, principalmente, naquele instante em que uma mulher percebe que está sendo observada — e simplesmente continua caminhando.
Otávia aprendeu sozinha a caminhar. E, avalio, esteja exatamente aí sua maior sedução. Em uma de suas pernas vive um lobo tatuado, uivando para a Lua. Poderia, mas não é, ser apenas um belo desenho. Esse lobo é quase uma autobiografia clandestina, porque, diz Tatá, representa a mulher que aprendeu a caminhar sozinha, a ouvir a própria intuição e seguir adiante sem perder a essência.
A Lua representa suas fases. Tudo aquilo que passou e sobreviveu. E há ainda toda a luz que ainda guarda para resplandecer.
Quando ouvi sua explicação, pensei imediatamente na outra Otávia. A romana, que também conheceu a solidão. Otávia, irmã de Augusto, foi entregue em casamento a Marco Antônio quando casamentos entre poderosos serviam menos ao coração do que aos mapas. Sua união deveria costurar a paz entre homens que desejavam possuir Roma. Ela tentou ser ponte, e terminou atravessando sozinha, porque surgiu Cleópatra. E contra a rainha do Egito não competia apenas uma mulher. Competiam Roma e Alexandria, Ocidente e Oriente, dever e desejo, casamento e paixão.
Marco Antônio escolheu o incêndio. Otávia ficou com as cinzas, sem se ajoelhar diante delas. É aqui que as duas Otávias se encontram através dos séculos. A romana descobriu que podia sobreviver sem o homem que preferiu outra mulher e outro reino. Já a brasiliense, descobriu que caminhar sozinha não significa estar abandonada.
Significa conhecer o próprio caminho, e nisso há uma diferença gigantesca. O lobo tatuado na perna sabe disso. Ele permanece imóvel como um guardião silencioso, mas segue, exposto na pele, cada passo de Otávia. Quando ela caminha, ele caminha. Quando ela dança, imagino que dance também. Quando a noite chega, procura sua velha companheira no céu.
É quando surge a Lua. Há algo inevitavelmente sensual nessa imagem. Não porque seja necessário despir Otávia para enxergá-la. Muito pelo contrário. Até porque, o tempo fez-me acreditar que algumas mulheres ficam mais nuas quando revelam aquilo que carregam na alma. E o corpo, como o de uma deusa dos mais místicos oráculos, apenas conta parte da história.
Entendo que seja esse o mistério de Otávia, onde a beleza abre a porta, mas é a personalidade que impede a saída. Para isso, Nefertiti emprestou o perfil e Afrodite reconheceu a feminilidade. A Lua, por sua vez. reivindica o brilho. Mas nenhuma delas pode reivindicar completamente Tatá.
Porque Otávia pertence a si mesma. Essa é a diferença fundamental entre a romana e a brasiliense. A Otávia do tempo do Império Romano viveu num mundo em que mulheres eram frequentemente transformadas em instrumentos das alianças masculinas. Seu casamento ajudou a adiar uma guerra. Seu abandono ajudou Augusto a justificar outra.
Mas a Otávia de Brasília nasceu num tempo em que pode escrever a própria narrativa, sem precisar reconciliar César algum. Ela, inclusive, não precisa esperar Marco Antônio regressar de Alexandria e muito menos disputar com Cleópatra o coração de um homem indeciso.
Se algum Marco Antônio contemporâneo resolver partir atrás de sua rainha do Egito, que vá. É só embarcar no metrô de Águas Claras, que continua funcionando, enquanto a Lua continua nascendo e o lobo estará sempre uivando.
Imagino então Otávia numa dessas noites quentes de Brasília, quando o vento resolve desaparecer e a Lua surge enorme entre os edifícios.
Ela caminha, quem sabe usando um vestido que acompanhe discretamente o movimento do corpo, com o tecido permitindo que, entre um passo e outro, apareça por alguns segundos o lobo tatuado na perna. Quem passar poderá olhar. Alguns olharão duas vezes, e isso é compreensível.
Mas provavelmente não perceberão o essencial. Pensarão estar olhando apenas para uma mulher bonita, sem saber que estão diante de uma pequena mitologia particular. Ali caminham Nefertiti, Afrodite, a antiga matrona romana e uma loba que decidiu não aceitar coleira. Todas dentro da mesma mulher.
E quando Otávia desaparecer na próxima esquina, deixando atrás de si apenas perfume, memória e alguma imaginação inquieta, a Lua continuará sobre Águas Claras, iluminando a cidade, o caminho, o lobo.
Porque a primeira Otávia precisou aprender a sobreviver aos homens que disputavam um império, enquanto a nossa Tatá aprendeu algo ainda mais sedutor. Trata-se de uma mulher verdadeiramente livre, daquelas não espera que alguém lhe ofereça um império.
Otávia Kilvia escolhe seus caminhos, atravessa suas noites, guarda seus mistérios e governa a si própria. E o resto? Ah, quem desejar, que aprenda a acompanhar seus passos.
Fosse eu poeta, e não jornalista que avança tateando pelo emaranhado e admirável mundo das crônicas, me associaria a Pedrinho Rodrigues e diria que “(…) a loira é minha, ninguém tasca eu vi primeiro.”
Mas isso, Tatá sabe, é apenas um gesto de carinho, respeito e consideração, embora possa valer um Panamá autêntico que acabou inadvertidamente em minhas mãos. Não é, Mari?. Quanto ao Djalma, se ele insistir no tema, poderei até dizer que o chapéu sumiu como as fores da Ana.
………
José Seabra é CEO fundador de Notibras


Grande José Seabra, o homem da palavra fácil, o nosso poeta do dominó !!!
Posso ter umas aulas sobre como ganhar uma partida?
Que perfeição, sem dúvidas a forma mais linda que alguém já me enxergou, muito obrigada!
Grande amigo poeta!
José Seabra é um escritor de grande talento e sensibilidade, que transforma palavras em sentimentos e histórias que despertam reflexão e emoção. Sua escrita demonstra criatividade, conhecimento e uma maneira singular de enxergar e transmitir a vida. Parabéns meu amigo!