Muvuca
Ônibus lotado
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Ônibus 472, 6h47 da manhã, lotado como sempre. O cheiro é uma mistura de desodorante barato, café requentado e vida real. Eu entro empurrado pela multidão e já ouço a primeira pérola do dia:
— Ô moça, esse ônibus vai pro centro ou vai pro inferno? Porque tá quente igual!
Risos coletivos. O cobrador nem pisca, só grita: “Passa pra trás, pelo amor de Deus, tem mais gente querendo entrar do que político querendo cargo!”
Aí começa o coral matinal.
Dona Lurdes, que todo mundo conhece porque pega o mesmo ponto há 18 anos, já emenda:
— Menina, tu viu o preço do tomate? R$ 12 o quilo! Daqui a pouco a gente vai fazer salada com foto de tomate, porque é mais barato.
A menina de fone no ouvido tira um lado, suspira e solta:
— Tia, eu nem como mais tomate. Como filtro do Instagram, deixa tudo vermelho e bonito.
Silêncio de dois segundos, depois gargalhada geral. Até o motorista ri e quase passa do ponto.
No banco do meio, Seu Geraldo, aposentado que parece ter nascido já com 70 anos, vira filósofo:
— Sabe o que é, minha filha? A gente vive na era do “parece”. Tudo é parecer rico, parecer feliz, parecer magro. Eu mesmo… (ele levanta a camisa) …tenho tanquinho. Tanquinho de lavar roupa, mas tenho.
Mais risada. O ônibus inteiro vira auditório.
De repente, uma voz lá do fundo, meio rouca, meio cansada:
Ei, deixa eu falar uma coisinha séria agora…
Todo mundo cala. Até o motor parece baixar o tom.
A voz continua:
— Eu pego esse ônibus todo dia há sete anos. Conheço a cara de vocês, sei quem tá grávida, quem perdeu emprego, quem tá apaixonado porque fica sorrindo pro celular. A gente passa mais tempo junto aqui do que com a própria família. Então, por favor… se um dia alguém estiver com cara de choro, oferece o ombro. Se alguém tiver dormindo e passar do ponto, acorda. Se a idosa entrar, levanta. Não custa nada ser gente.
Silêncio absoluto. Até a buzina de fora parece respeitar.
Aí eu, que estava quieta no canto, sinto o verso subir na garganta como soluço:
Nesse latão lotado de gente sem nome
a gente aprende a lição que a escola não deu: o mundo cabe inteiro num banco de ônibus se a gente souber dividir o espaço e o adeus.
Uma mulher de uns 40 anos, óculos embaçados de vapor, completa baixinho:
E às vezes o abraço que a gente precisa vem de um estranho que nem sabe o nosso nome, mas sabe que a vida pesa e oferece o ombro mesmo assim.
O ônibus freia no ponto final. Todo mundo desce meio diferente. Dona Lurdes dá bom-dia pro cobrador pela primeira vez em anos. Seu Geraldo ajuda a moça com o carrinho de bebê. A menina do fone guarda o celular e olha pela janela de verdade.
Eu desço por último, com o coração cheio e o bolso vazio (coisa normal de fim de mês). Mas levo comigo a certeza que aprendi ali, entre suor e poesia improvisada:
O Brasil pode estar caro, bagunçado, difícil pra caramba, mas enquanto houver conversa no ônibus lotado, a gente ainda tem jeito.
E tem poesia.
Muita poesia.
De graça, ainda por cima.