METAFÍSICA
ENTRE PASSADOS QUE NÃO VIVI E FUTUROS QUE ME ESQUECEM
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A FLORESTA DO TEMPO
A tempestade não sopra, Ela se deposita.
Não cai do céu.
Ela nasce no espaço entre os pensamentos.
E se espalha como cinza sobre o que ainda tenta ser claro.
Caminho dentro dela,
Como quem atravessa um sino quebrado.
O som não vem de fora.
Vem do próprio passo.
O ar é espesso, respirável apenas pela insistência.
O peito é um poço onde as perguntas afundam antes de ecoar.
No chão, imagens sem data.
Rostos que não reconheço,
Mas que me reconhecem.
Passados que ainda não vivi.
Futuros que já me esqueceram.
Procuro-me neles e não encontro.
Sou o intervalo entre duas revelações fracassadas.
Então a terra abre o seu chão, e eu caio.
O vulcão não cospe fogo, e sim tempo.
Erupciona instantes contra o meu nome.
Faz do coração um campo de colisão.
Tudo acontece simultaneamente.
A perda nasce ao mesmo tempo que o afeto.
A memória precede o acontecimento.
O fim chega antes do começo aprender a existir.
Isso não me parte.
Isso me dissolve.
Até que não reste sequer a ausência inteira.
Entro na mata que não figura nos mapas.
Ela não ameaça.
Ela observa.
Ela não acolhe.
Ela permite.
Ali o Mundo deixa de ser cenário.
Se torna exigência.
O sagrado não vem como resposta.
Vem como pressão mansa no centro do peito.
Um peso que não oprime, mas organiza.
O caos começa a respirar.
Não ganho companhia.
Perco separação.
E isso custa tudo.
Queimo o que lembro.
Queimo o que espero.
Queimo até o gesto de segurar.
Não por fúria, mas por leveza.
Viro chão onde antes era peso.
Viro passo onde antes era nome.
E sigo.
Não sei se avanço.
Não sei se retorno.
Não sei sequer se ainda sou aquele que caminha.
Talvez seja só mais um para o resto.
Atravessam meu corpo, que é solo.
Solo da Floresta do Tempo.
Pisam nele a fim de continuar a travessia.
Esmagam a existência diante da inércia.
O Mundo precisa continuar sendo Mundo.
……………..
Renan Damázio, carioca, é advogado, professor e poeta, autor do livro “Emoções e Reflexões”.