Teses realistas
Quem perde uma hora do seu tempo não sabe o valor da vida
Publicado
em
Tem coisas que não foram feitas para durar. O nosso tempo de vida é a principal delas. Do ponto de vista da poesia, só nos esquecemos do tempo quando o utilizamos. No modo prático, o tempo e a maré não esperam por ninguém. Como deliberadamente deixamos para amanhã o que poderíamos ter feito hoje, nada melhor do que refletir sobre uma das mais sábias ponderações do mito Charles Chaplin, para quem cada segundo é tempo para mudar tudo para sempre.
Amante das teses mais realistas, defino o tempo como um grande mestre, mas com o terrível defeito de matar seus discípulos sem aviso prévio. Nunca questionei nada que tenha saído da verve e da mente futurista de Albert Einstein. Entretanto, às vezes me surpreendo tentando descobrir uma motivação para sua afirmação de que a única razão para o tempo existir é para que tudo não aconteça de uma vez só. Então, o tempo verdadeiramente é uma ilusão. Pode ser, mas eu não acredito.
Como acreditar que é ilusória uma coisa que, além da vida e dos amigos, nos leva tudo, quer queiramos ou não? Por enquanto, mantenho intacto meu pé de meia, o velho pé de meia. Por falar em idade, vista pelos jovens, a vida é um futuro infinitamente longo. Todavia, ela se transforma em um passado muito breve quando é vista pelos velhos. Como sou um desses, gosto de ouvir os que dizem que o tempo do medo já aconteceu e que agora começa o tempo da esperança. Oxalá!
Soube por fontes mais imberbes, que a redação do último Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), considerado um salto sem vara para a educação superior, versou a respeito das perspectivas do envelhecimento da sociedade brasileira. Não imagino o que tenham escrito, mas, lembrando que, depois do computador e do celular, preciso pensar horas para escrever uma carta de dez linhas ortograficamente perfeita, me pus a ditar para mim mesmo o que gostaria de escrevinhar para a eternidade.
Antes da primeira frase, me lembrei que o eterno é o agora e que o instante é o momento de falar durante o curto tempo do sinal vermelho. Seguindo o aconselhamento de meus mestres asiáticos Piro Litho e Kaida Kama, iniciei minha lírica e fictícia redação grifando que a história da vida sempre é feita no tempo presente. Sem claudicar ou pestanejar, segui voando baixo no dia a dia da labuta, gastando a sola do sapato, soletrando versos descarados para as deusas dos pecados da Praça Tiradentes e ameaçando um rebolation no mexe-mexe de um samba sincopado. Como terminar uma redação que ninguém vai ler?
Da mesma forma que iniciei, ou seja, deixando para a história esse presente danado e que, em breve, passaremos a chamá-lo de passado, percebi tardiamente que a compra do primeiro automóvel me fez perder o hábito de caminhar. Vibrando com o futuro, deixei de procurar a sombra e a brisa de uma árvore quando o ar-condicionado se instalou em minha vida. O pior de tudo foi me encher de cartões de crédito e esquecer o verdadeiro valor do dinheiro. Sei que envelhecer no Brasil é um ato revolucionário. Sei também que o tempo é a maior distância entre dois lugares. Portanto, se vale como perspectiva, a minha é que um homem que ousa perder uma hora do seu tempo não sabe o valor da vida. Na concepção do filósofo grego Diógenes, o Cínico, o tempo é a moeda mais valiosa que um homem pode gastar. Eu gasto pouco para ver se envelheço menos.
…………..
Heliodoro Quaresma, jornalista com carteira carimbada por grandes jornais do país, tem uma velha Remington aposentada como troféu na estante da sala; agora usa um notebook para produzir seus textos como colaborador de Notibras.