Que rei sou eu?
A DUPLA TRANSMIGRAÇÃO DE ALEXANDRE, O GRANDE
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Desde que fora deposto e encarcerado, Daniel Dravot tentava manter os pensamentos ordenados. Sentado na cela de chão batido, angustiado, mas ainda confiante em uma reversão da situação, suas lembranças retornaram ao momento em que decidira desertar do exército colonial britânico de ocupação da Índia. Como um filme passando em sua mente, ele voltou no tempo.
Daniel entendia perfeitamente a ignomínia da situação de opressão que ocorria no território indiano no início do ano de 1946 e, fossem qual fossem as consequências da sua deserção, mentalizava que nada poderia ser pior do que continuar sendo um peão do sistema colonial a massacrar diariamente inocentes cujo único crime era terem nascido hindus.
Durante a madrugada, afastou-se silenciosamente da sua patrulha e tomou o rumo do Kafiristão. Tinha ouvido falar naquele país montanhoso, primitivo e quase inacessível. Lá, os soldados britânicos certamente não conseguiriam chegar e, portanto, ele estaria livre das severas punições previstas para o seu ato.
Pelos seus cálculos, caminhara durante um mês escalando montanhas, cruzando rios e embrenhando-se por matas até chegar a um deserto rochoso e escaldante.
Nesse longo trajeto, alimentou-se de plantas e de alguns pequenos animais que conseguia abater com o seu revólver.
Dormia de dia e caminhava à noite, portando uma lanterna que, eventualmente, ligava tão somente por alguns segundos a fim de não exaurir as pilhas do precioso aparelho.
Após vencer essa maratona de sobrevivência improvável, Daniel chegou a uma pequena aldeia habitada por nativos da região.
Os aldeãos o receberam amigavelmente, manifestando grande curiosidade pelo seu perfil ocidental, idioma inglês e uniforme militar.
Ofereceram-lhe comida, água e uma cama de palha para repousar.
Depois de acordar de um longo sono reparador, ele pedira aos seus anfitriões na linguagem universal dos sinais por um banho e, assim, o encaminharam a uma imensa banheira natural construída ao ar livre pela engenharia dos nativos.
Foi então que a vida de Dravot deu um giro de cento e oitenta graus.
Após despir-se da camisa para entrar na água, notou que, perplexos, os nativos apontavam para o seu peitoral e gritavam:
— Sicander, Sicander!
Sem entender nada da situação, ele olhava para a tatuagem que fizera quando tinha dezoito anos. Havia sido um presente de um tio esotérico que lhe garantira que a figura tatuada no seu peito lhe traria glória e fortuna. Mesmo assustado com aquela reação inesperada dos seus anfitriões, tomou prazerosa e demoradamente o tão sonhado banho.
Depois de sair da banheira natural, secou-se e vestiu-se, tentando parecer natural e ignorar o burburinho a sua volta. Imediatamente, aquele que parecia ser o líder da aldeia convidou-o a ocupar a sua cabana, ordenando que o lugar fosse suprido de farta alimentação e cântaros de água fresca, oferecendo também roupas nativas que pareciam de nobre procedência. Inutilmente, ele tentava se comunicar com a autoridade do lugar e quem mais o observava a fim de colher informações sobre onde estava, quem eram eles, etc, mas, respeitosamente, todos mantinham uma distância reverencial.
E assim a situação se manteve até chegar uma delegação que parecia misturar religiosos, militares e assessores diversos. Um dos sacerdotes – aparentando ser o mais graduado – aproximou-se dele e, via mímica, pediu para ele retirar o manto que lhe fora fornecido.
Após obedecer a ordem do líder da expedição, Daniel viu o sacerdote olhar sua tatuagem demoradamente e, em seguida, ajoelhar-se, exclamando com devoção:
— Sicander!
A seguir, todos os presentes no recinto fizeram o mesmo e, dessa forma, permaneceram por longos minutos.
Conduzido a uma espécie de carruagem, Daniel iniciou outra longa jornada. Qual era o destino, não sabia, até um soldado nativo graduado que sentou a seu lado, surpreendentemente, dirigir-lhe a palavra na sua língua:
— Está confortável, Sicander?
Estarrecido, o desertor do exército britânico replicou:
— Você fala inglês?
— Falo sim, morei cinco anos na Índia e aprendi com os meus amos.
— Notável… como se chama?
— Meu nome é Kafu, sou secretário assistente do Conselho de Sacerdotes e um dos coordenadores militares do Kafiristão.
— Então você deve saber porque todos aqui me chamam de Sicander, não é mesmo?
— É a sua tatuagem, é o símbolo sagrado de Sicander.
— E quem seria Sicander?
— Vocês ingleses o conhecem pelo nome de Alexandre, para nós, Sicander.
— Alexandre? Alexandre, o macedônio, o grande?
— Ele mesmo! Para todos aqui, a tatuagem em forma de sol estrelado de dezesseis pontas significa a reencarnação de Sicander.
— Mas isso é um engano, você tem que dizer isso para eles!
— E por que eu faria isso? Eles acreditam no que veem e no que diz a lenda: o prometido retorno de Sicander.
— E o que devo fazer então?
— Sugiro que você assuma o papel de rei e governe bem, é o melhor para todos. Com Sicander no comando da nossa tribo, as demais tribos do Kafiristão vão se unificar sob a sua autoridade e, assim, nossos conflitos terminarão.
Embora relutante, Daniel aceitou a investidura, afinal, o que mais poderia fazer?
— Está certo, Kafu, mas preciso da sua assessoria direta. Nomeio você primeiro-ministro do rei!
Acompanhado pelo líder do conselho de sacerdotes, Kafu mostrou ao novo Sicander a sala do tesouro da coroa. Sem acreditar no que via, Daniel segurou nas mãos o que deveriam ser as maiores pedras de ouro maciço do planeta.
— Eu posso dispor delas como quiser? perguntou, extasiado.
— O tesouro da coroa pertence a Sicander, respondeu Kafu.
— Deus, isso aqui deve ser suficiente para comprar toda a Inglaterra, murmurou o rei do Kaferistão.
Após a sua ascensão ao trono, Daniel esqueceu a sua vida anterior, uma existência egoísta e miserável sob todos os aspectos e incorporou o estadista que estava adormecido dentro dele. Sempre acompanhado por Kafu e o líder dos sacerdotes, literalmente de peito aberto, o novo Sicander percorreu o país para consolidar a sua autoridade.
Usando o ouro do tesouro real, o rei importou materiais e ordenou a construção de estradas, pontes, residências coletivas, obras de infraestrutura, saneamento, irrigação, postos de saúde e escolas. Aos preceitos religiosos vigentes, Sicander agregou uma legislação civil que melhorou a convivência entre os súditos.
Dia sim e o outro também, dizia entusiasticamente para Kafu:
— Ainda farei desse território esquecido por Deus um país com hino, pavilhão e orgulho nacional que será respeitado e quiçá admirado pela rainha da Inglaterra.
O fato era que o país progredia e as condições de vida da população kafiristã melhoram a olhos vistos. Todavia, o poder secular que elevou Daniel também iria derrubá-lo do trono.
Ocorre que, dois anos após a ascensão do novo Sicander, outro soldado – por diferentes motivações – teve a mesma ideia de Daniel e desertou do exército inglês na Índia.
O tenente Venceslau Pietro ouvira falar da existência de grandes riquezas em um país vizinho. Acompanhado da sua patrulha, ele largou a ocupação da Índia e enveredou rumo ao Kafiristão na esperança de enriquecer rapidamente.
Venceslau Pietro tinha um temperamento belicoso, mentalidade colonial e, portanto, um profundo desprezo pela população da região.
Sua patrulha, ao chegar na fronteira do Kafiristão, atacou a tiros uma aldeia nativa que, por sua vez, tentou se defender com as armas de que dispunha: lanças e flechas.
Durante o conflito, uma flecha o atingiu no peitoral e cravou-se na cartucheira que estava sob a camisa. Impávido, ele retirou o dardo sem esforço e continuou a disparar contra os nativos com o seu fuzil.
Ao observar a cena, o sacerdote da aldeia ordenou que os combatentes kafiristãos depusessem as armas, gritando:
— Sicander, Sicander!
No Kafiristão, dizia a lenda que Alexandre, o grande, ou melhor, Sicander, não sangrava e, portanto, nunca poderia ser morto em batalha.
Ato contínuo, todos se joelharam perante o tenente inglês e entregaram a ele as suas armas. Venceslau então exigiu que o sacerdote lhe mostrasse o ouro de que tanto ouvira falar, mas, sem um tradutor presente, o diálogo se mostrava difícil. Lembrou-se então de uma pequenina pedra dourada que subtraíra de um indiano e que carregava no bolso.
Ao ver a amostra, o sacerdote entendeu o que o suposto redivivo Sicander desejava e apontou para o leste, sinalizando para que ele o seguisse.
Logo foi se formando uma grande caravana que seguia Venceslau e sua patrulha rumo à capital do país.
A notícia voou e chegou antes de Venceslau no palácio real. Confuso, o líder dos sacerdotes viu uma multidão fanatizada gritando a plenos pulmões:
— Sicander no trono!
Contava-se que Venceslau tinha sido atingido por centenas de lanças e flechas sem que nenhuma o ferisse ou o fizesse sangrar. O fervor foi tal que contaminou os sacerdotes e os guardas do palácio. Pressionado, o líder dos sacerdotes ordenou a prisão de Daniel Dravot – considerado então um impostor – e ungiu Venceslau Pietro como novo rei.
Despertado de suas lembranças pela entrada de Kafu na cela, Daniel animou-se:
— O que está acontecendo lá fora, Kafu? Devo estar trancado nessa cela há mais de um mês.
— Ele está destruindo tudo o que você fez: desativou as escolas, os postos de saúde, parou as obras de infraestrutura, e usa o ouro real para importar bugigangas, bebidas e comidas exóticas para o consumo dele e da sua patrulha.
— Não acredito que fui substituído por esse traste! Na real, nós dois podemos ser considerados impostores, mas eu aprendi a amar esse país e queria o bem do povo.
— Agora ele está planejando uma guerra com o Afeganistão para aumentar os seus domínios e roubar as riquezas dos afegãos. Isso vai exaurir ainda mais a economia e será um completo desastre para o nosso país.
— Não se antes ele for desmascarado publicamente!
— Mas como fazer isso, Daniel? Estão todos cegos pelo mito da imortalidade dele!
— Então todos acham que ele é o verdadeiro Sicander porque não sangra, não é mesmo?
— Sim, isso foi testemunhado por centenas de pessoas.
— Eu convivi com esse tipo na Índia e sei sobre as suas fraquezas e vícios. Olha, você tem que fazer exatamente o que vou lhe dizer…
Depois de ouvir as palavras de Daniel, Kafu falou:
— Pode deixar, seguirei as suas instruções ao pé da letra!
Durante uma “burriata”, um passeio urbano de asnos, atividade frequentemente promovida pelo Sicander para animar os seus apoiadores, Venceslau avistou moçoilas bem apessoadas em frente a uma residência. As moças tiraram os véus e acenaram para ele, entrando em seguida na residência.
Como “pintou um clima”, o rei parou o passeio e entrou na casa atrás das lindas kafiristãs.
Logo, ele tentou beijar a mais atraente, sendo aparentemente correspondido em seus desejos libidinosos.
Todavia, a moça que a princípio parecia desfrutável aplicou-lhe uma enérgica mordida, fazendo jorrar muito sangue da sua boca.
Desesperado, o Sicander saiu correndo para a rua, deixando à mostra o ferimento e o farto sangue que dali escorria, incinerando dessa forma o mito da sua invulnerabilidade.
Percebendo o efeito que isso causou na multidão, Venceslau gritou para a sua patrulha:
— Peguem o ouro, coloquem nos burros e vamos dar o fora daqui!
Logo a notícia chegou aos ouvidos do líder dos sacerdotes que, de pronto, ordenou a prisão de Venceslau e seus asseclas..
Perseguidos pelos guardas reais e montados em asnos, o rei deposto e seus comparsas ingleses tentaram atravessar a ponte de cordas construída por Daniel na entrada da cidade, mas a passagem não tinha sido feita para suportar o descomunal peso das dezenas de sacos de ouro que a comitiva fugitiva tinha colocado nos animais de carga.
Homens e asnos despencaram espetacularmente no profundo precipício em uma queda que parecia não ter fim.
Depois desses eventos, Daniel foi reconduzido ao cargo de Sicander e, juntamente com o fiel Kafu, retomou o governo do país.
Decorrido um mês, os estragos promovidos pelo governo de Venceslau Pietro pareciam ter sido superados e tudo aparentava caminhar na direção certa para o país e para os kafiristãos, quando Kafu, aparentando preocupação, entrou na sala do rei.
— Sicander, temos problemas…
— O que houve, Kafu?
— O governo colonial da Índia acabou de promover um tarifaço de quarenta por cento sobre os nossos produtos, o conselho central dos sacerdotes quer mais verbas para coisas secretas, uma escriba inventou uma mentira sobre você que está se espalhando como rastilho de pólvora…
— Como governar bem um reino assim?, perguntou Daniel Dravot, o Sicander quase arrependido do dia em que tirou a camisa para banhar-se…
UM VENTUROSO 2026 PARA OS KAFIRISTÃOS, PARA OS BRASILEIROS E PARA A HUMANIDADE!