Palavra inventada
PORTUÍNAS
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Portuínas,
A poesia, tal como a entendo, é inútil
Para que terei então chegado até aqui?
Estradas na areia esquecerão as palavras que ouso
Como a folha de tua memória queimará
As passadas letras esculpidas
Portuínas,
De rios breves que secam planícies
De um imaginário país inatingível
Cuja lembrança aprisiono em meu pensamento
Uma secreta claridade se desprende
Dos dedos reumáticos e lentos
E nos arbustos, ruídos de passos
Só o atento observador de astros
Não se distrai
Da nebulosa que se desprendeu
Portuínas,
Quantos esforços involuntários a palavra perpetuou
Deixando pegadas na areia, nas sombras
Do vulto que anda, caminha, desanda
E nem em poema te reconstituo, Portunínas!
Quem tomará a sério a palavra de um distraído
Inventor de silêncios
A verdade, a mentira, o desgosto, a humana ilusão
O segundo da vertigem, as transitórias miragens
Romãs frescas desprezadas
Por desbotados girassóis
Portuínas,
Tudo me transmuta na ambiguidade
Do asfalto que rasga
A infinita paisagem
Permanecerei em movimento perpétuo
Antes de eu me descobrir em direção
A absolutamente nada
Portuínas,
Peço ao menos que o decisivo instante
De coisa alguma, interpretações
Teime generosamente em nos guiar
De mãos dadas e asas bem abertas
Pelas estradas desse teu país imaginário
…………..
*Potuínas: palavra inventada por Sofia, aos cinco anos de idade (2003), para denominar o “mundo mágico dos castelos de areia” que ela cresceu construindo ao meu lado.
** Gilberto Motta é escritor, jornalista e professor/pesquisador. Vive num mundo parecido com Portuínas, na Guarda do Embaú, litoral de SC.