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A boca

O contista fechava os olhos e visualizava a curvatura perfeita dos lábios

Publicado

Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

O contista sonhava com aquela boca, vista uma única vez, numa postagem do Facebook. Fechava os olhos e visualizava a curvatura perfeita dos lábios e seu colorido natural, realçado por um batom de tonalidade suave; os lábios entreabertos de uma bela mulher entregue ao sono; os dentes perfeitos, logo abaixo do lábio superior. Claro que ele poderia ver novamente a imagem, mas preferia assim, apenas com a imaginação. Um contato visual excessivo poderia quebrar o clima de encantamento que a linda boca despertava nele.

O enlevo não era a única emoção sugerida por aqueles lábios, o contista ansiava por beijar a portadora deles. De início, seriam beijos castos, a exploração, com a língua, da comissura labial e de cada dobra de pele das duas partes carnudas. Logo, porém, as línguas se tocariam, querendo mais, haveria mordidinhas sensuais no lábio inferior dela e no dele, e o fogo tomaria conta de seus corpos. Porque, em sua imaginação, era a boca de uma dessas mulheres que só dizem sim, que não tem pudor em sentir e despertar desejos. E mais tarde, se os deuses ajudassem, viriam outras oralidades, realizadas com vagar e maestria.

O poeta vigiava o sono da portadora da boca. Não que jamais sonhasse com aqueles lábios lindos, já lhes dedicara inúmeros poemas apaixonados. Mas a familiaridade, o ter com frequência a mulher em seus braços, entorpecia pouco a pouco o encantamento e reforçava a sensação de posse sobre ela e todas as partes de seu belo corpo. Pior, ele sabia que não era uma boca feita para dizer não, e por vezes se remoía de insegurança na cama a seu lado, enquanto ela dormia com um leve e delicioso ressonar.

Insone, o poeta imaginava quantas pessoas – homens e mulheres – desejariam estar em seu lugar. Quantos sonhariam em despertá-la com beijos, lamber cada dobrinha de pele daqueles lábios, mordê-los de início bem de leve e ir num crescendo, atiçando a libido da portadora da boca e incendiando-a de desejos …

Certa noite, foi demais para ele. Pegou uma faca e retalhou os lábios magníficos, desfigurando-os.

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