Adeus, Banco Central
Renato Gomes vira casaca e pode ser rebaixado para o futebol de várzea
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Não é simples entender como a burocracia do Banco Central passou a definir, na prática, quem pode ou não competir no sistema financeiro brasileiro. Mas basta olhar para o legado deixado por Renato Gomes à frente da Diretoria de Organização do BC para que o desenho fique nítido.
É preciso desenhar? Então, vamos lá. Imagine o mercado como um campeonato de futebol. O Banco Central deveria ser o árbitro que zela pelas regras, garanti equilíbrio e punir excessos, no caso, faltas que mereceriam até cartão vermelho.
O que se viu nos últimos quatro anos, porém, foi um juiz que mudou o regulamento durante a partida. Para os grandes clubes, o gol ficou maior. Para os pequenos, as chuteiras vieram amarradas.
Sob o verniz técnico da “prudência” — uma palavra nobre que costuma justificar quase tudo — a diretoria comandada por Gomes cavou um fosso no mercado.
Para os pequenos, sobretudo fintechs e novos entrantes, o BC passou a exigir níveis de capital quase equivalentes aos de bancos tradicionais, consolidados há décadas. É como obrigar uma startup a carregar o mesmo lastro de um transatlântico. O efeito foi previsível, com projetos inviabilizados, operações asfixiadas, inovação abortada antes de nascer.
Já para os grandes conglomerados, o tratamento foi outro. Fusões e aquisições que reduziram a concorrência avançaram com velocidade surpreendente. A concentração foi naturalizada. Quem já dominava a Avenida Paulista ganhou sinal verde para comprar quem ousasse disputar um pedaço do asfalto.
No jargão econômico, isso atende pelo nome de “discricionariedade regulatória”, onde as regras são pouco claras, aplicadas conforme o tamanho do jogador. Na prática, criou-se um ambiente em que o acesso certo em Brasília, bons escritórios de advocacia e trânsito nos corredores do poder passaram a valer mais do que eficiência, inovação ou preço justo ao consumidor.
Não se trata apenas de burocracia excessiva, mas de seletividade regulatória. O que se observa é um mercado em que a lei pesa mais para quem é leve, e que flutua, paralelamente, para quem é pesado demais para cair.
Encerrado o mandato, Renato Gomes opta por abrir mão da quarentena — período em que poderia permanecer afastado do mercado, remunerado pelo Estado — para atravessar rapidamente a porta giratória. Sai do guarda-chuva do Banco Central direto para o outro lado do balcão. Há, supostamente, uma instituição privada que se beneficiou exatamente do ambiente regulatório que ajudou a moldar.
A questão ética é direta e incômoda, pois coloca na cadeira de suspeito um árbitro que apitou, sabe-se lá por que, pensando no interesse público ou já de olho no vestiário que o aguardava após o apito final?
O resultado está aí. Um sistema financeiro cada vez mais concentrado, hostil a novos entrantes e blindado por regras que sufocam a concorrência. Um jogo em que os grandes não apenas vencem — eles escolhem quem pode entrar em campo.
Ainda usando o futebol como metáfora, temos o exemplo do Mirassol, um pequeno time paulista que surpreendeu todo mundo e hoje está na elite do Brasileirão. Árbitros como Renato Gomes, portanto, precisam ficar atentos e apitar dentro das regras, sob pena de ser mandado para o futebol de várzea. Isso se não tiver doping no meio.
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Marta Nobre é Editora Executiva de Notibras
