Privatiza que piora
Aumento na conta de água faz dinheiro suado escoar entre os dedos
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Desde o dia primeiro de janeiro, a conta de água ficou mais cara em São Paulo. E como sempre acontece quando uma tarifa essencial sobe, logo apareceram vozes tentando justificar o reajuste. Houve quem dissesse que o aumento é positivo porque ajudaria a frear o consumo. À primeira vista, esse argumento até pode soar coerente. Mas basta olhar com um pouco mais de atenção para perceber que ele não se sustenta.
A realidade é que a maior parte do consumo de água não está nas torneiras das casas, mas sim no agronegócio e na indústria. São esses setores que concentram o uso intensivo dos recursos hídricos. O consumo doméstico, aquele que envolve banho, comida, limpeza e higiene, representa apenas uma fração do total. Ainda assim, é justamente sobre a população que recai o peso imediato do aumento da tarifa.
Quando a conta de água sobe, não é o grande produtor rural nem a grande indústria que sentem primeiro no bolso. Até porque o aumento pode ser diluído no preço do produto. Quem sente são as famílias de baixa renda, que já fazem malabarismo para pagar aluguel, luz, transporte e alimentação. Para essas pessoas, água não é um bem supérfluo nem algo sobre o qual se possa “reduzir consumo” sem comprometer dignidade e saúde. Não dá para tomar menos banho do que o mínimo, lavar menos roupas do que o necessário ou cozinhar sem água.
No fim das contas, esse tipo de aumento acaba funcionando como mais um mecanismo de penalização dos mais pobres, disfarçado de discurso ambiental. Se a preocupação fosse realmente com o uso responsável da água, o debate estaria focado em regulação, fiscalização e responsabilidade dos grandes consumidores, e não em reajustes que atingem quem menos consome e menos pode pagar.
A conta não fecha. E quem paga, como quase sempre, é a população que já carrega o maior peso das desigualdades.