Radar pós-Maduro
Termômetro político sobe com muito volume e pouco consenso
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Desde a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela, os dados do Radar Lula impressionam pelo volume e pelo alcance: mais de 317 mil menções em menos de 24 horas, com 396 milhões de alcance potencial. Isso não é ruído comum de redes; é evento político de alta combustão. O dado mais revelador, porém, é qualitativo: 60% de menções negativas, impulsionadas quase integralmente pela direita (88% do campo político).
Já o Radar Flávio Bolsonaro opera em outra lógica: menos volume absoluto, mas altíssima taxa de positividade (89%), indicando um ambiente de mobilização orgânica, coeso e emocionalmente alinhado. Não é um debate aberto; é uma bolha energizada.
Em termos simples: Lula está no centro da tempestade, enquanto Flávio Bolsonaro navega o vento a favor, falando quase exclusivamente para convertidos.
A narrativa da esquerda em defesa de Lula é sofisticada, institucional e internacionalista, mas pouco eficiente no ambiente de redes. Fala-se em:
soberania,
direito internacional,
multilateralismo,
ONU, Celac,
“zona de paz”.
São argumentos racionais, diplomáticos, mas que perdem tração frente a frames emocionais simples, como “defesa de ditador” ou “lado errado da história”.
A direita, por sua vez, construiu um cerco narrativo eficiente, com quatro eixos claros. A captura de Maduro é celebrada como “vitória contra a ditadura”. Quem critica a ação vira cúmplice do mal. Não há zona cinzenta.
O que se observa é que pouco importa a distinção entre defender soberania e defender regime. O enquadramento dominante é que Lula protege ditadores porque compartilha o projeto.
A tese da “censura” reaparece com força, onde TSE, STF e Moraes são reposicionados como agentes que teriam impedido “a verdade” de circular. O episódio internacional vira prova retroativa de uma injustiça eleitoral.
Quando surgem frases como “Lula é o próximo”, o debate deixa o campo simbólico e entra no território do alerta institucional, mesmo que esses conteúdos não sejam majoritários.
Como resultado desse quadro, Lula aparece defensivo, reagindo a uma agenda imposta, com dificuldade de disputar emoção. E isso é um elemento central nas redes.
Flávio ensaia o futuro
O radar de Flávio Bolsonaro mostra algo diferente. É uma construção de liderança, não apenas comentário de ocasião.
Nesse aspecto, a Venezuela funciona como metáfora total, explorando tudo o que a base rejeita (pobreza, censura, autoritarismo), tudo o que o Brasil não pode se tornar, tudo o que, segundo essa narrativa, estaria “em curso”.
A força aqui não está na novidade, mas na repetição disciplinada. Três movimentos se destacam:
1. Comparação Brasil–Venezuela como alerta existencial. Não é política externa; é sobrevivência nacional.
2. Conexão entre geopolítica e sistema eleitoral. A crítica ao socialismo externo se conecta diretamente à crítica às instituições internas. É uma narrativa contínua, sem rupturas.
3. Sinais de pré-campanha. Menções a 2026, pedidos explícitos de apoio, linguagem religiosa (“oração”, “amém”)… tudo indica organização emocional da base, não apenas reação aos fatos.
A esquerda até tenta contra-atacar, falando em “intervenção estrangeira” e resgatando acusações como “rachadinha”, mas isso não perfura a bolha nem altera o saldo amplamente positivo.
A conclusão é de que janeiro começa quente, em um horizonte tenso. Esses primeiros dias de 2026 revelam sinais claros. A polarização não arrefeceu com o calendário; ao contrário, ganhou novo combustível externo. A direita digital está mais coordenada, emocionalmente mobilizada e confortável no conflito. O governo Lula enfrenta dificuldade crônica de tradução de narrativa, uma vez que fala para fora (mundo, diplomacia), mas apanha dentro (redes, emoção, moralização).
Não se trata apenas de Lula versus Flávio Bolsonaro, mas de dois modelos de discurso. Um aposta na mediação institucional; o outro, no confronto simbólico direto. Se este é o tom de janeiro, o restante do ano promete mais calor, menos nuance e um ambiente político onde cada crise internacional vira munição doméstica. O termômetro subiu. E ninguém parece disposto a desligar o fogo.
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Marta Nobre é Editora Executiva de Notibras
