Crise dos 40
Notas na Penumbra
Publicado
em
— Já vai começar com esse barulho infernal?
Confrontado com a indagação carregada de ódio e sem disposição para mais uma discussão infindável, Miguel guardou o instrumento sem ao menos soar uma única corda.
Começou as aulas de violão por recomendação da terapeuta, a quem recorreu quando percebeu que suas crises de melancolia estavam se tornando agudas. Questionava-se sobre o sentido das suas conquistas como profissional, marido, pai e homem. Para piorar, os filhos adolescentes não demonstravam interesse em se aproximar, e a esposa parecia ter transformado a grosseria em hábito.
Descobriu que o mito da crise dos 40 era real e estava no centro dela. As aulas de violão não resolveram seus problemas, mas trouxeram uma nova perspectiva e o ajudavam a se acalmar. Porém, o que deveria ser um alívio virou motivo de discórdia: a esposa criticava cada tentativa de produzir som, obrigando-o a tocar escondido ou aproveitar raros momentos de solidão.
Até que, numa noite, decidido a evitar brigas. Esperou a esposa e filhos dormirem e, munido apenas do violão, saiu de casa na ponta dos pés. Pegou o carro e foi até outro apartamento mobiliado que possuíam e no momento encontrava-se vazio. Entrou, subiu o elevador, escolheu o quarto que acreditava ser o que menos incomodaria os vizinhos e começou a liberar o estresse por meio de arpejos e dedilhados… Voltou para casa de madrugada, passando despercebido pelo restante da família.
No dia seguinte, percebeu que esse ato de rebeldia silenciosa lhe fez muito bem. Foi um dos poucos dias nas últimas semanas que esteve bem-humorado, se sentindo cheio de energia, diante dos desafios da sua puxada rotina diária. Decidiu então repetir a escapada mais vezes, e logo tornou-se um hábito praticamente diário o de fugir na calada da noite e, escondido em seu outro apartamento, praticar por horas algumas melodias. Nem se deu o trabalho de levar de volta o instrumento para seu verdadeiro lar.
Nas visitas ao seu refúgio, normalmente encontrava poucos vizinhos. Mas numa ocasião, enquanto a porta do elevador se fechava, viu uma moça jovem se aproximando e segurou a porta para ela, que simpaticamente o agradeceu. Suas mãos se tocaram de forma brusca quando ambos tentaram apertar o mesmo botão do elevador, eram vizinhos de porta.
Desculparam-se mutualmente pelo contato involuntário, ficando ambos em silêncio o restante da subida. Sendo o andar deles o mais alto do prédio, ele teve bastante tempo para admirar a beleza daquela mulher. Ela aparentava timidez, desviando o olhar e mantendo a cabeça baixa. Ainda assim, estar em sua presença transmitia uma paz profunda. Seu perfume era inebriante. Saiu do encanto em que se encontrava quando viu a própria aparência no espelho do elevador.
A cena era de contraste total. Com a barriga saliente pelo sedentarismo e a calvície avançada, ele tinha certeza de que não era atraente para aquela jovem. Não que pensasse em ter um caso fora do casamento. Por mais que seu relacionamento não estivesse bem, era inconcebível a ele a traição. Na verdade, no fundo, ele precisava admitir, tinha vergonha de admitir, mas às vezes desejava que a esposa arranjasse algum amante e fugisse de casa. Quem sabe, assim, metade dos seus problemas estariam resolvidos.
Após aquele primeiro encontro, passaram a se cruzar ocasionalmente pelos corredores, sempre com a mesma troca tímida de cumprimentos. Mas tudo mudou quando uma noite se viram novamente no que parecia ser apenas mais um daqueles encontros rápidos. Porém, naquele dia, enquanto o elevador subia, as luzes se apagaram de repente e a cabine parou com um tranco. Alguns instantes depois, a luz de emergência se acendeu, mas o elevador continuava imóvel. Estavam presos ali.
Mantiveram a calma, apertaram o botão de emergência algumas vezes e esperaram. Sem ter muito assunto para puxar, ele perguntou:
— Será que vai demorar muito para tirarem a gente daqui?
— Bem, quando isso acontece, costuma levar um tempinho sim — ela respondeu.
— Como assim? Isso acontece com frequência?? — exclamou Miguel.
— É, acontece às vezes. Quando tem queda de energia, esse elevador costuma demorar a voltar. Você não mora aqui há muito tempo, né? — perguntou ela.
— Verdade, não moro — respondeu ele, sem dizer o real motivo de suas visitas diárias ali.
Depois de um silêncio constrangedor em que parecia que nenhum assunto em comum poderia surgir, ela o surpreendeu perguntando:
— É você quem toca violão à noite, né?
Miguel respondeu de forma hesitante: — Ah, sim, sou eu. Ora, não sabia que era possível ouvir através das paredes… me desculpe. Tomarei mais cuidado para não incomodar. Sei que o horário não é o mais adequado para isso.
— Não, não faça isso, por favor! Adoro te ouvir tocando — ela o interrompeu.
— Olha, obrigado pela gentileza, mas eu ainda estou aprendendo, sei que não toco bem, então…
— E é justamente isso que eu gosto: acompanhar essa evolução. É algo que me fascina essa capacidade humana de aprender novas habilidades. Meu dia é sempre muito agitado, quando te ouço tocando, me acalmo. Percebo sim quando erra alguma nota e você pacientemente inicia de novo, fico ouvindo, torcendo para que você acerte a próxima execução e, assim sem perceber, adormeço.
A princípio, pensou que ela estivesse brincando, talvez sendo irônica. Acostumado a envolver cada pensamento sobre si mesmo em uma névoa de autodepreciação, não estava preparado para o contraste entre a frase “Já vai começar com esse barulho infernal?”, que o levara até ali, sentado no chão do elevador, e a frase dita há pouco por aquela mulher tão bela: “Quando te ouço tocando, me acalmo”.
Mas, conforme a conversa avançava, percebeu que não era vítima de uma troça e sim abençoado por cair nas graças de alguém com uma habilidade ímpar de demonstrar empatia e compaixão, além de um excelente gosto musical. Quando enfim contou a ela o motivo de estar no prédio todas as noites, ela preferiu manter a discrição, não fazendo nenhum comentário a respeito da estranha dinâmica daquele casamento.
A noite ainda lhe reservou uma última surpresa quando ela soltou:
— Gosto muito quando você toca “Cloud Atlas”.
Não era possível que ela conhecesse aquela música, não era uma faixa disponível no circuito comercial tradicional.
— Como você conhece essa música?
— Eu vi o filme. Li o livro. Adoro como a melodia vai crescendo aos poucos, mas sempre volta ao tema central, como que dando a impressão de que tudo…
— … Está conectado — Ele completou.
— É isso.
O breve silêncio entre eles durou apenas alguns instantes, suficiente para que Miguel, num surto de lucidez, conseguisse resgatar a autoestima dilapidada por anos de indiferença e insultos que sofria em casa. Ainda sentado no chão do elevador, aproximou-se daquela mulher que, agora, lhe parecia quase uma figura mitológica libertadora. Ao perceber que ela não recuava, beijou-a com delicadeza.
O elevador estremeceu e voltou a funcionar, interrompendo o momento. Caminharam juntos até o apartamento dela e, naquela noite, caso algum vizinho estivesse atento, perceberia que, ao invés das costumeiras notas do violão, essa noite o som que se ouvia no andar era o dos gemidos contidos dos dois amantes.