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Situação difícil

Quando o Corpo Precisa Falar

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Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Nós aprendemos a seguir em frente mesmo quando algo dentro de nós pede pausa. Aprendemos a normalizar o excesso, a romantizar a resistência, a chamar de força aquilo que, muitas vezes, é apenas sobrevivência. Mas o corpo não negocia com o silêncio da mente. Ele fala cedo ou tarde.

Ficar doente depois de uma situação difícil nem sempre é fraqueza. Às vezes, é o único idioma que o corpo encontra para expressar aquilo que já ultrapassou todos os limites. Quando não conseguimos dizer “chega”, o corpo diz. Quando não conseguimos parar, ele interrompe. Quando insistimos em suportar, ele desaba.

Nós carregamos dores que não aparecem em exames imediatos: perdas mal elaboradas, relações que exigiram mais do que podíamos dar, ambientes hostis, violências sutis acumuladas no cotidiano. Tudo isso se deposita em algum lugar. E, muitas vezes, esse lugar é o corpo.

Adoecer, nesse contexto, não é falha moral nem falta de resiliência. É sinal. É alerta. É um pedido de escuta que não foi atendido antes. O corpo não adoece por capricho, ele reage ao que foi demais por tempo demais. Ao que foi engolido em nome da funcionalidade, da aparência de normalidade, da obrigação de seguir.

Nós fomos ensinadas a ignorar sinais: o cansaço persistente, a ansiedade constante, a tristeza sem nome, o sono que não descansa. Aprendemos a empurrar tudo para depois. Mas o depois chega. E quando chega, chega no ritmo do corpo, não no nosso.

Há algo profundamente humano em reconhecer isso. Em entender que adoecer também pode ser um ato de autoproteção involuntário. Uma tentativa do organismo de nos salvar de nós mesmas, da insistência em continuar em cenários que já não cabem mais.

Quando o corpo fala, não é para nos punir. É para nos preservar. Ele nos obriga a parar, a rever, a cuidar. A perguntar, finalmente, o que estava sendo ignorado. E essa escuta, por mais dolorosa que seja, pode ser o início de uma relação mais honesta conosco.

Nós seguimos aprendendo não a sermos invencíveis, mas a sermos inteiras.

E inteireza também inclui respeitar quando algo é demais.

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