Consciência
O Tempo em Que Somos
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Nossos antigos amigos já não sabem da nossa vida atual. Os amigos que hoje caminham conosco não conhecem em detalhes a vida que tivemos antes. E isso, longe de ser perda, é sinal de travessia. Há etapas da vida que não precisam ser explicadas a quem não está mais nelas, precisam apenas ser compreendidas por nós.
Nós não somos uma linha contínua sem rupturas. Somos feitos de fases, de versões que precisaram existir para que outras pudessem nascer. Algumas pessoas nos conheceram quando ainda estávamos aprendendo a sobreviver. Outras nos encontram agora, quando já aprendemos a escolher. Nenhuma delas conhece tudo e não precisam conhecer.
Há uma ilusão perigosa de que precisamos ser inteiramente transparentes o tempo todo, como se coerência significasse repetição. Mas a verdade é que crescer também é preservar. É permitir que certas histórias fiquem onde pertencem: no passado que nos formou, mas que não nos define mais.
Nós sabemos quem fomos quando doeu.
Sabemos quem somos agora que entendemos.
E sabemos, sobretudo, quem estamos nos tornando.
Essa consciência é mais importante do que qualquer narrativa compartilhada. Porque somos nós que habitamos esse intervalo esse período em que o passado já não governa e o futuro ainda está sendo construído. Somos nós que carregamos a continuidade invisível entre versões que, para os outros, parecem desconexas.
Não devemos explicações a quem não acompanhou o processo. Nem precisamos atualizar quem ficou para trás. Nossa vida não é linha do tempo pública é experiência vivida. E há uma dignidade silenciosa em saber que não precisamos ser compreendidas por todos para sermos inteiras.
No fim, o que importa não é quem sabe o quê sobre nós.
Importa que nós sabemos.
Sabemos de onde viemos.
Sabemos onde estamos.
E sabemos que esse período, exatamente este, é o que nos sustenta agora.
E isso importa muito mais.