Luto eterno
Melancólico e vazio, jogo acabou zerado para quem rejeitava o 1 a 1
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Com exceção daquilo que todo homem acha que o outro já experimentou, eu já coisei de tudo na vida. De chofer de cachorro de madame a pegador de bosta no ar, jamais deixei escapar uma oportunidade de crescer. Mesmo perdendo, nunca me senti derrotado. Me levanto e vou à luta. Apesar da descendência gaúcha, faço como fez Luís Fernando Veríssimo: “Nunca usei bombacha, não gosto de chimarrão e nem de me lembrar da última vez que subi em um cavalo. O cavalo também não”. É claro que não havia Fernando Sabino para mim. A partir dele, passei a perceber que as palavras escritas se eternizam e constroem pontes da imaginação.
E tudo isso pulsa, tudo isso é vida. Graças ao escritor mineiro, também descobri o ator, diretor, produtor e roteirista norte-americano Orson Welles. Com ambos aprendi como é bom ser menino. Por meio de um amontoado de letrinhas, um me disse que, quando menino, os mais velhos lhe perguntavam o que queria ser quando crescesse. Hoje não perguntam mais. Se perguntasse, certamente ele diria que gostaria de ser sempre menino. Para quem nasce, nada mais natural do que crescer.
O outro me alertou para a impossibilidade de alguém evoluir sem esforço algum, isto é, tentar recuperar à força o poder que perdeu. Ao descobrir o tamanho da lorota, retornei à estrada decidido a escapar da infância o mais cedo possível. Seguindo o aconselhamento de Orson Welles, assim que descobri voltei correndo para ela. Apesar de adulto, nos momentos de dúvida é a ela (a infância) que busco. Antes de continuar com a prosa, registro, sem qualquer preocupação com eventuais análises subjetivas e conceituais a meu respeito, minha necessidade de ter dúvidas.
Aliás, não tenho nenhuma dúvida de que só os estúpidos têm absoluta confiança em si mesmos. Adepto da tese vanguardista de que viver é não ter vergonha de ser feliz, canto e danço esperando a banda passar, principalmente porque amanhã será outro dia. E assim, sem lenço e sem documento, aproveito o sol de verão nas bancas que de jornais só têm a lembrança e me refestelo com as lambanças daqueles que não entendem nada, mas insistem em achar que sabem da piscina, da margarina, da Carolina e até da gasolina.
No máximo, conhecem a Cloroquina e a Ivermectina. Mesmo assim, como não sabem para que servem, as recomendam para a morte. O tempo voa para todos, inclusive para os que nunca coisaram nada na vida. Para esses, o mais complicado é perceber que, sem paixão, não dá nem para chupar um picolé. São como objetos não identificados, os quais se perderam em um dia 8 de janeiro e nunca mais se acharam. Na verdade, estão limitados ao recanto de um imbrochável soluçante e irremediavelmente sem chances de recuperação depois do abalo institucional que eles mesmos provocaram.
Eu já dormi no banco da praça. Por isso, hoje entendo que melancolia é a forma romântica de se ficar triste. Enfim, o homem só percebe que está por um fio quando o coração finalmente concorda com a mente. E foi assim, melancólico e vazio, que o jogo acabou para aqueles que estão de luto pela eterna impossibilidade de recuperar o que perderam: o poder, a liberdade e o respeito. São os que sonhavam com o dez a zero, enquanto o povo torcia por um a um. Terminaram zerados. Se ainda pudesse, diria aos manés do 8 de janeiro que hoje um novo dia amanhece e eu anoiteço cada vez mais. Tomara que um dia eles (os manés) descubram que a tolerância é a maior virtude dos fracos.
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Wenceslau Araújo é Editor Chefe de Notibras