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A audácia dos canalhas

Poder político e econômico traçam o mundo real

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Autor/Imagem:
João Zisman - Foto Editoria de Artes/IA

Algumas expressões sobrevivem porque descrevem comportamentos que insistem em se repetir. Audácia dos canalhas é uma delas. Não pede autoria ilustre nem rodapé erudito. Basta observar a história quando o poder perde o pudor, quando a transgressão vira método e o limite passa a ser tratado como detalhe técnico.

O mundo de hoje parece avançar dentro de um trem desgovernado. A velocidade é alta, os avisos são ignorados e as curvas surgem sem preparação. Não se vê freio. O que se vê é gente confortável com o risco, como se a ausência de controle fosse prova de coragem.

Nesse cenário, há um condutor simbólico, apelidado aqui de Galego. Ele reúne audácia prática, recursos financeiros praticamente inesgotáveis e o destemor típico dos alienados. Não é o louco errático, mas o que acredita tanto na própria intuição que dispensa qualquer cálculo moral. O Galego atende pelo nome de Donald Trump, mas convém ajustar o foco. Ele não é o eixo do mundo. É um acelerador de instabilidades já existentes.

O Galego olha agora para a Groenlândia com a naturalidade de quem enxerga o mapa como um catálogo. Não se trata apenas de bravata. É a lógica da força testando limites institucionais, tratados e consensos, para ver até onde pode ir sem reação efetiva. A audácia aqui não está no plano em si, mas na certeza de que sempre haverá espaço para avançar mais um pouco.

Enquanto isso, o trem cruza outros territórios morais. A captura de Nicolás Maduro retirou de cena um personagem que por anos encarnou o uso sistemático do Estado como instrumento de opressão, saque e sobrevivência pessoal. Maduro já não está no poder. Está sob custódia. Ainda assim, o silêncio de muitos regimes autoritários diz mais do que discursos inflamados. Calam-se para não serem lembrados.

A exceção curiosa vem de Vladimir Putin. Em plena guerra para ocupar e tomar partes da Ucrânia, Putin encontrou espaço para criticar duramente a captura de Maduro. O gesto não tem nada de moral. É cálculo frio. Criticar o destino do ditador vizinho funciona como aviso preventivo e como narrativa externa, enquanto a própria agressão territorial segue em curso. A audácia, aqui, veste o figurino da indignação seletiva.

O Brasil não está fora desse trilho. A audácia dos canalhas também se expressa quando o dinheiro resolve andar na frente das instituições, quando estruturas financeiras passam a funcionar como pontes opacas entre interesses lícitos e ilícitos. Daniel Vorcaro não tem relação com petróleo, mas tornou-se símbolo de outra coisa. A megalomania de usar um banco para ocupar espaços, capturar fluxos e expor, sem sutileza, o emaranhado promíscuo entre setores do sistema financeiro e os poderes da República. Não é metáfora. É método. O que veio à tona não foi um desvio isolado, mas a anatomia de um modelo que só funciona onde a audácia substitui o limite.

Nesse mesmo ambiente surgem empresários como Joesley Batista, personagens experientes, nada ingênuos, que sabem exatamente quando um investimento deixa de ser econômico e passa a ser político. Quando o risco não fecha a conta, mas ainda assim atrai milhões, o mercado já não é o único critério. A audácia aparece na convicção de que tudo pode ser contornado. Sigilo, influência, tempo e cansaço social.

A história mostra que a audácia dos canalhas prospera quando a prudência vira sinônimo de fraqueza. Quando o improviso é celebrado como virtude. Quando o eleitor é tratado como espectador cansado, incapaz de conectar pontos. O trem segue assim, carregado de interesses cruzados, egos inflados e dinheiro em trânsito.

A pergunta que se impõe não é quem ocupa a cabine em determinado momento. É quem ajudou a retirar os freios. Porque, quando a audácia dos canalhas vira método, o impacto não é abstrato. Ele chega. E chega sempre para todos.

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