Menino maluquinho
Sem proteção do mito, Nikolas poderá virar meme dos próprios memes
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Do tipo menino chupetinha criado com avó, daqueles que brincam de casinha, de médico e de trenzinho, o deputado mineiro Nikolas Ferreira (PL-MG)) tem de se apegar a todos os deuses, orixás e pais de santo para se reeleger. Se perder o mandato, certamente correrá o risco de ser preso e, para onde for, perderá o que diz ter ainda sem marcas. No xilindró, ele será o primeiro, o segundo, o terceiro e o décimo-quarto de uma fila interminável de trogloditas loucos por carne fresca.
Deputado federal de primeiro mandato, o tal menino acha que tudo são flores no Parlamento. Por enquanto, todos à sua volta adoram quando ele bota o pescoço na guilhotina. Um dia cortarão. É óbvio que, como todo bobo da corte, vão esticar a corda até que ela o enforque. É assim que agem os mais espertos. Como ele, seus “comandantes” talvez morram sem descobrir que, por trás de todo paladino da moralidade, vive um canalha. Certamente também ninguém lhe dirá que o ser humano é cego aos próprios defeitos.
Tanto isso é verdade que jamais um cego se proclamou vilão e nunca um idiota se disse idiota. Muito mais nas eleições de 2018 e um pouco menos na de 2022, grande parte dos deputados bolsonaristas se elegeu na esteira destrambelhada da figura do mito. Do mesmo modo que o sonho acabou, a euforia não existe mais, porque o mito derreteu, escafedeu-se. Isso quer dizer que, em 2026, com Luiz Inácio nadando de braçada, será cada um por si e Flávio Bolsonaro ou Tarcísio de Freitas por nenhum deles.
Oito anos depois de levitar nos braços da multidão que o acompanhava nas ruas, nas redes sociais, nas motociatas e nas manifestações convocadas pelo pastor Silas Malafaia, Bolsonaro hoje está só, sem saúde e enfrentando um esvaziamento político que seus desmobilizados seguidores nunca imaginaram. Pior é a rejeição. Acabou as fases da vitimização, do coitadinho, do perseguido político e do paciente preferido do vilão Alexandre de Moraes.
Prova disso é que numa das últimas pesquisas Genial/Quaest, mais de 60% dos consultados se manifestaram no sentido de que todas as decisões judiciais contra Bolsonaro foram justas e que ele deve mesmo ficar preso porque tudo que fez. Ou seja, acabou a festa. Tenho a impressão de que a maioria dos bolsonaristas descobriu que amar os heróis e os mitos é fácil. Difícil é amar o próximo, torcer pelo crescimento econômico igualitário do povo e votar em nomes que, antes da família e do próprio bolso, pensem na pluralidade social da pátria.
Pau mandado ou realmente a reencarnação do Menino Maluquinho, o deputado Nikolas Ferreira publicou recentemente um meme sugerindo que o presidente Luiz Inácio seja sequestrado por Donald Trump. Embora disponha de imunidade parlamentar, Nikolas não está acima da lei e, portanto, deve experimentar em breve mais um ferro grosso vindo dos tribunais. Fora isso, ele que se cuide, pois, nas eleições de outubro, para seu desespero, Lula estará na área com um novo slogan: “O que não provoca minha morte faz com eu fique mais forte”. O cenário mais drástico é que, sem o colo do mito, ele corre o risco de virar meme de seus próprios memes.