Entre a esperança e a estiagem
Desafios climáticos que moldam a vida do sofrido povo nordestino
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O dia nasceu antes do relógio. Os galos ainda cochilavam quando Maria conta os primeiros grãos de luz que invadiram seu terreiro rachado. O sol, que para muitos é promessa de vida, para ela é aviso: hoje será mais um dia quente demais.
A terra seca range sob os pés, e os pés, por sua vez, caminham sempre em busca d’água — seja no poço, seja na memória de tempos em que as mãos se molhavam no rio. “Ô, filho, lembra quando a gente plantava milho e ele crescia até o céu?”, diz Maria.
O filho olha o horizonte lívido e responde: “Lembro, mãe. Mas agora a colheita é feita de esperanças”. É assim: a vida nordestina não se mede em números de chuva, mas em força de persistência.
Quando uma nuvem resolve aparecer no céu de terras escaldantes, é como se um santo tivesse sorrido para o sertão.
Crianças saem correndo, mãos erguidas, esperando que o céu derrame bençãos. Os mais velhos ainda chacoalham a cabeça, cautelosos: “Nuvem que passa rápido não enche açude”.
Em 2026, as nuvens têm pressa. Passam leves, como se não quisessem molhar a terra — ou talvez como se tivessem medo do próprio sol.
O vento carrega poeira, e os pensamentos carregam perguntas: Quando foi que a chuva deixou de ser certeza para virar nostalgia?
No canto de uma casa caiada de branco, o mandacaru insiste. Seus braços espinhados apontam para o céu — talvez em súplica, talvez em desafio.
É planta que conhece o sertão como ninguém: sobrevive com pouco, resiste com tudo. Junto ao mandacaru, Seu Antônio conversa com a seca como quem fala com um amigo difícil: “Ô estiagem, tu me conhece. Já passei por ti antes. Não me derruba!”. O mandacaru floresce de vez em quando — flores amarelas que duram como um sorriso.
Elas não mudam a falta d’água, mas mudam o coração de quem contempla.
Ninguém sabe ao certo quando a esperança nasceu no Nordeste. Ela deve ter chegado com os primeiros caminhantes que atravessaram o sertão em busca d’água. Ou talvez com o primeiro trovão que ribombou e fez o solo tremer.
Hoje, a esperança tem som: é o barulho de caminhões-pipa chegando nas comunidades; é o riso das crianças ao ver água nos tanques; é o canto distante de um pastor a guiar o rebanho.
E, sobretudo, é a voz resiliente das pessoas que, mesmo diante de notícias de secas prolongadas e mudanças de clima, continuam acreditando.
Quando o sol finalmente descansa além da serra, o céu se tinge de laranja, vermelho e um pouco de azul tímido. É o momento em que os nordestinos se reúnem: para jantar, para conversar, para sonhar.
O cansaço do dia é pesado, mas a fé segue leve. Ali, na mistura de terra, suor e alegria, há uma verdade que ninguém pode negar: entre a esperança e a estiagem, o nordestino aprende a viver com as duas — e ainda inventa coragem para sorrir.