Razões
Quíron era o mais sábio dos centauros
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No meu conto Prometeu.2, um dos personagens centrais é o centauro Quíron, que é ferido por uma flecha envenenada disparada por seu amigo Héracles. O centauro sofre com dores lancinantes e está condenado a suportá-las por toda a eternidade, pois é imortal. Decide, então, assumir o castigo imposto por Zeus ao titã Prometeu, que roubou o fogo dos deuses e o entregou aos homens, desde que a divindade suprema lhe dê o bálsamo da morte. Depois que isso acontece, o senhor do Olimpo, comovido, o transforma na constelação de Sagitário.
Narro agora outro episódio da vida de Quíron. Detalhe, é tudo rigorosa e escrupulosamente inventado – privilégio de contista –, menos as referências mitológicas que, como todos sabem, são verdadeiras de cabo a rabo.
Quíron era o mais sábio dos centauros. E também o mais nobre.
A começar pela origem. Enquanto quase todos os centauros, segundo os relatos mais arcaicos, eram filhos do Sol e das nuvens de chuva, ele fora gerado por Cronos e por uma ninfa. Era, portanto, meio-irmão de Zeus, Poseidon e Hades, as divindades mais poderosas da Hélade.
Quíron foi criado por Apolo, que lhe transmitiu todos os seus conhecimentos, da música às práticas divinatórias. Bondoso, gentil e renomado por seu saber, especialmente na arte de curar, tornou-se mais tarde preceptor de vários heróis helênicos, entre eles Héracles, Aquiles, Teseu e Jasão. Outro de seus discípulos, e talvez o mais querido, foi Asclépio (em latim, Esculapius), reverenciado ainda em vida como deus da Medicina.
Certa vez, Quíron, Asclépio e outros médicos pioneiros se encontravam em um simpósio de curadores, quando passou pelo local da reunião uma eguinha pocotópolos (eguinha pocotó, em grego), num cio arretado. Ela só pensava naquilo, ansiava por sentir sobre o dorso o corpo pesado de um garanhão… mentira, até um burrinho servia, desde que apagasse o seu fogo e lhe fizesse lindos potrinhos.
Naquele momento, Quíron estava na tribuna, prestes a iniciar sua intervenção. Era um centauro ainda jovem, na força da idade, sempre na ponta dos cascos (em todos os sentidos). Ao sentir os eflúvios da pocotópolos, seu rosto como que encompridou-se, tornando-se quase equino. Bufou, sacudiu os cabelos de um lado para o outro (não tinha crina, que peninha), tentou escarvar o chão de mármore com os cascos dianteiros, conteve a custo um arremedo de relincho e balbuciou:
– Tenho de sair… Compromisso inadiável…
E partiu a galope.
Na porta, porém, deteve-se por um instante e dirigiu a seus pares palavras imortais, séculos depois recolhidas, em tradução bem-comportada, pelo filósofo francês Blaise Pascal, que menciona coração em lugar de outra coisa; e que, ainda mais tarde, chegaram ao Brasil por intermédio de Marino Pinto e Zé da Zilda, no samba Aos pés da cruz (na versão, digamos, cardíaca de Pascal, não na sincerona de Quíron):
– As partes baixas têm razões que a própria razão desconhece!