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Eu já

Eu já namorei com as moças, beijando-as com desejo e fazendo outras coisinhas…

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Eu já namorei com as moças, beijando-as com desejo e fazendo outras coisinhas, murmurando doces obscenidades em seus ouvidos e enlouquecendo-as de tesão, até nossos corpos se tornarem um só. Mas esse tempo passou, hoje namoro mais não.

Eu já militei contra os milicos, participei de muitas passeatas, escrevi contra o regime militar, fui preso, depois solto, reivindiquei Diretas Já ao lado de milhões de brasileiros. Quase 40 anos depois, retomei a luta contra o regime do Bozo e dos bozinhos numerados. Mas esse tempo passou, hoje milito mais não.

Eu já mergulhei na revolução portuguesa, dei aula em faculdade em Évora, marchei em manifestações gigantescas da esquerda em Lisboa e em Paris, embalei minhas madrugadas ao som de chansons francesas e fados lusitanos. Mas esse tempo passou, hoje mergulho mais não.

Eu já brinquei com palavras. Parafraseando e contrariando Drummond de Andrade, que escreveu, em seu poema O lutador, “Lutar com palavras/é a luta mais vã./Entanto lutamos/mal rompe a manhã”, escrevi que “Brincar com palavras/é coisa louçã./ Brincando, brincando,/ irrompe a manhã”. Mas esse tempo passou, hoje brinco mais não.

Eu já inventei termos novos, seguindo na trilha de Guimarães Rosa. Pareciam-me – e talvez fossem – mais expressivos que muitos vocábulos usuais. Mas esse tempo passou, hoje invento mais não.

Eu já poemei bastante, falando do amor e da dor e da miríade de sentimentos e vivências entre essas balizas. E também da felicidade, da alegria, da tristeza, da solidão, tanta coisa… Mas esse tempo passou, hoje poemo mais não.

Eu já voei em meus versos, mas não para os astros da nossa e de outras galáxias. Em vez disso, para fazer visitas ao paraíso e outras, mais frequentes, ao inferno, aos meus infernos. Mas esse tempo passou, hoje voo mais mão.

Eu já desbravei minhas memórias de menino, desvelando e revelando episódios de infância, testemunhos de que o garoto continua presente, escondido num corpo de idoso. Mas esse tempo passou, hoje desbravo mais não.

Eu já soltei cafifa (ou pipa), hoje solto mais não. Eu já rodei pião, hoje rodo mais não. Eu já corri atrás de bola, hoje corro mais não. Eu já tive mil sonhos, hoje tenho mais não.

Hoje, escrevo textos.

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