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Proteção e rejeição

Os símbolos de São Bento e a visão ocultista

Publicado

Autor/Imagem:
Marco Mammoli - Texto e Imagem

Quando um símbolo de igreja começa a aparecer em altar de magista, mesa de tarô e até em giro de umbanda, algo interessante está acontecendo. A Cruz de São Bento é exatamente esse tipo de caso: um objeto nascido no coração do catolicismo que, hoje, circula sem pudor entre ocultistas, bruxos urbanos, operadores de magia do caos e praticantes de religiões afro e ancestrais.

Vale a pena olhar para ela com calma, mas sem ingenuidade. Porque aqui temos duas camadas bem distintas, o que é historicamente e na tradição católica e o que nós, do meio ocultista, fazemos com isso hoje. E confundir uma coisa com a outra é o caminho mais rápido para cair em fantasia.

O que a tradição realmente diz é que, historicamente, a Cruz (ou Medalha) de São Bento é um “sacramental católico”. Ou seja, não é “amuletinho de loja esotérica”: é um objeto de devoção ligado a bênçãos e exorcismos, principalmente dentro da tradição beneditina. Observe que, São Bento viveu no século VI e a medalha, com esse desenho cheio de letras que a gente conhece hoje, só foi se consolidar séculos depois, especialmente a partir do século XVII. Ou seja, não foi Bento quem desenhou um sigilo como um mago de Grimório. A medalha é fruto da tradição beneditina posterior, que condensou orações e fórmulas de exorcismo num objeto portátil. Oficialmente temos, uma cruz central (a Cruz de Cristo), o monograma “PAX” (Paz), lema beneditino. E um monte de iniciais latinas que resumem frases de proteção e rejeição do mal, por exemplo:

– Crux Sacra Sit Mihi Lux: “Que a Cruz Sagrada seja a minha luz.”

– Non Draco Sit Mihi Dux: “Que o dragão não seja o meu guia.”

– Vade Retro Satana: “Afasta-te, Satanás.”

– Nunquam Suade Mihi Vana: “Nunca me aconselhes coisas vãs.”

– Sunt Mala Quae Libas: “É mau o que tu me ofereces.”

– Ipse Venena Bibas: “Bebe tu mesmo o teu veneno.”

Para a Igreja, isso tudo é: oração, exorcismo, pedido de proteção, confiança em Cristo e na intercessão de São Bento. É assim que a coisa nasce.

E o que o olhar ocultista enxerga ali? Vamos ao que nos interessa mais. Sem desrespeitar a origem cristã, dá para assumir um outro ângulo: olhar essa mesma medalha como um selo de proteção e banimento extremamente bem construído. Repara nos elementos:

– Uma cruz central: um eixo onde vertical (espírito–matéria) cruza com horizontal (eu–mundo). Em termos mágicos, um “ponto de cruzamento de planos”.

– Um nome: Crux Sancti Patris Benedicti, a “Cruz do Santo Pai Bento”. Isso funciona como “endereço” para uma egrégora específica, a corrente beneditina, com séculos de oração, disciplina e combate espiritual.

– Um eixo de alinhamento: Crux Sacra Sit Mihi Lux / Non Draco Sit Mihi Dux: “Minha luz vem daqui; não sigo guia caótico, enganoso ou destrutivo.”

– Um anel de comando e banimento: Vade Retro Satana / Nunquam Suade Mihi Vana /Sunt Mala Quae Libas / Ipse Venena Bibas. Ordenando: “Sai”; “Não me confunda”; “Eu enxergo teu veneno”; Que o que tu mandas volte para ti mesmo.”

E no topo, “PAX”: a “qualidade de campo” que se quer instalar. Em termos esotéricos brasileiros, dá para pensar como aquele axé de calma depois do descarrego, o sossego de terreiro em paz, o silêncio limpo depois de um bom banimento. Tecnicamente, do ponto de vista de magia, isso tudo é “engenharia simbólica de alta qualidade”. Quando um ocultista adota a Cruz de São Bento, ele está usando um “símbolo de fé” e tratando como ferramenta técnica, um selo. Conectando, querendo ou não, com uma “egrégora cristã/beneditina”, uma massa de fé acumulada por séculos. E, operando uma espécie de “alquimia interna”, transmutando medo, ataque, confusão, em firmeza, proteção e paz.

Isso vale para quem é cristão não praticante, mas ainda sente afinidade com Jesus, santos, terço etc.; os de religião afro (umbanda, candomblé) e lida bem com sincretismo pois, a gente sabe que santo e orixá se cruzam na história; e aqueles das tradições “antigas” (paganismo, bruxaria, xamanismos) e não tem problemas a símbolos cristãos. O importante é ter clareza que na linguagem da Igreja, é milagre, graça, intercessão e oração. E na linguagem do mago, é foco de vontade, selo, egrégora, banimento. Na prática, o funcionamento energético muitas vezes se parece mais do que ambos os lados gostariam de admitir.

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Marco Mammoli, Mestre Conselheiro e membro do conselho do Colégio de Magos e Sacerdotisas. Você pode entrar em contato com o Colégio dos Magos e Sacerdotisas através da Bio, Direct e o Whatsapp: 81 997302139.

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