Deu no poste e na internet...
DUAS TIGRESAS ETERNAS
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“Uma tigresa de unhas negras e íris cor de mel / Uma mulher, uma beleza que me aconteceu…”
(Tigresa, Caetano Veloso)
Caetano é mesmo para quem quer buscar mistérios e poesia nas entrelinhas.
Tigresa é uma dessas joias raras de Caetano composta para sempre.
É cinematográfica, daquelas que a gente não sabe se vem de uma boate dos anos 70 ou de um sonho ou “delírios tropicais calientes”.
Ela tem um poder estranho de hipnotizar. E talvez por isso deixa sempre dúvida presa no canto da cabeça a saltar e pulsar os macaquinhos do sótão.
Quem, afinal, foi a musa inspirada de tamanho poesia/ousadia?
Quem é essa gata/mulher de unhas fatais e sexo hard à flor da pele e pernas?
E já aviso logo antes que alguém venha dizer que eu estou atrasado: eu sei, eu sei… todo mundo sabe que a história passa pela atriz Sonia Braga. Mas não apenas este fato. Tem muito mais.
Fui pesquisar como quem monta um quebra cabeças. Ou desmonta. Uma entrevista aqui, outra acolá, uma fala do Caetano, um comentário perdido num programa antigo, e de repente os fatos e a realidade viram História concreta.
A primeira pista estava logo na abertura da música: as unhas negras.
E aí vem a frase que muda tudo.:
“Esfregando a pele de ouro marrom do seu corpo contra o meu”.
Isso não é só poesia, isso é quase um retrato. Essa imagem tem uma dona clara: a atriz e cantora Zezé Motta.
Na década de 70, Zezé não passava. Ela desfilava, fazia e quebrava tudo. Ícono de toda uma geração. Desbunde, talento, areias de Ipanema e as Dunas de Gal. Rio de Janeiro era pura festa. Zezé Motta era uma presença que virava a esquina antes do resto das pessoas. Estava anos-luz à frente de tudo.
“Pele de ouro marrom”, como Caetano escreveu. Unhas pretas. Batom preto.
Uma estética tão própria que parecia coisa de outro tempo, ou de um tempo que só ela já vivia.
Era uma artista completa num Brasil que adorava fingir que mulheres negras não estavam ali.
Só que Caetano, desse jeito dele de fazer ligações invisíveis, não se limitou a Zezé.
Ele fez um mosaico.
Misturou musas.
Colou vidas.
E aí a Sônia Braga entra pela fresta da letra como parceira, amante e cúmplice.
Quando ele menciona o musical Hair, sabemos que quem realmente fez Hair foi a Sônia. Mas naquela época as duas circulavam no mesmo imaginário: jovens, lindas, ousadas, com aquela aura de corpo livre e mente pulsante que definia uma geração atravessada pela ditadura e pela vontade frenética de viver apesar dela.
A música pula de 1966 para o Frenetic Dancin’ Days, finmal dos anos 1970.
É uma viagem movida a muita festa, coca (ina e cola), sexo e rock pop and roll.
1966/68 foram anos das ruas fervendo, dos estudantes enfrentando a repressão, da censura tentando apagar qualquer fagulha de pensamento….É PROIBIDO PROIBIR….
Já em 1977, o Dancin’ Days de Nelson Motta brilhava como uma promessa de respiro.
As luzes estroboscópicas pareciam dizer que o país ainda sabia dançar, mesmo amarrado por dentro.
O grupo As Frenéticas botava todo mundo pra danças e a Sonia Braga arrava em talento e popularidade estrelando a Júlia, personagem icônica da novela Dancin’n Days, na TV Globo vênus azulada.
Zezé transitava entre essas camadas com uma naturalidade quase ritual.
Zezé e Sonia arrasavem também no cinema.
De um lado, consciência política e racial.
Do outro, brilho, noite, palco, música, performance.
Elas eram plurais.
Zezé tinha mais conceito; era múltipla e um furacão.
Ela era o tipo de mulher que não cabia numa linha só.
E talvez por isso Caetano tenha precisado de uma canção inteira para tentar defini-la.
Meu colega de pesquisas e textos, o Fagner do site O Anacrônico, descreve à perfeição o fato:
“A densidade que Caetano coloca na personalidade dessa tigresa é tão forte que a gente entende por que alguém se apaixona por uma mulher assim. Ou por uma presença assim. Ou por uma ideia assim. Não estou falando sobre desejo. Eu me refiro aqui ao magnetismo. É aquela sensação de estar diante de algo grande demais, bonito demais, intenso demais, volumoso demais. Tem algo no toque do violão, na voz do Caetano, que parece um poema reclamado e cantado ao mesmo tempo”.
Ele não canta a Tigresa como quem canta uma mulher. Ele canta como quem narra o andar de um felino, de um gato grande, de um tigre avançando devagar.
A MÚSICA É MAGIA PURA
A música tem aquela malemolência de bicho que se move antes de atacar, com o dorso subindo e descendo numa curva lenta, e as patas se encaixando exatamente onde a outra pisou. É quase uma coreografia natural, uma precisão delicada.
Parece que a canção inteira imita esse caminhar: primeiro ela ronda, depois observa, depois se aproxima. É como sentir o olhar da tigresa pousado em você, firme e atento, sem pressa nenhuma. E a gente fica dividido entre medo e fascínio, como quem sabe que está diante de algo que pode te engolir e, ainda assim, não consegue parar de olhar.
ZEZÉ MOTTA NÃO ACREDITA SER MUSA
O mais curioso é que Zezé levou anos para acreditar que a música era inspirada nela. Achava que era para Sônia.
Só depois Caetano confirmou que a figura física da Tigresa veio mesmo de Zezé. Tem algo tão bonito nisso, como se a própria canção fosse tímida de revelar sua musa.
Como se a voz da Zezé, a presença da Sônia e a caneta do Caetano se encontrassem num corredor de tempo onde tudo ainda cheirava a novidade.
E acho bonito demais descobrir que a Tigresa existiu porque existiram duas mulheres capazes de chapar e transformar tudo: a música, o sexo, o tesão, a estética, o comportamento.
Luzes e chama: gestoras de ATITUDES.
…………………….
*Gilberto Motta é escritor, jornalista e criador da Coluna digital “DEU NO POSTE E NA INTERNET…”. Vive e escreve para o Café Literário direto da Guarda do Embaú, comunidade de pescadores, turistas e surfistas no litoral Sul de SC.
**Texto referencial pesquisado em Fagner, O Anacrônico, no Facebook.