MARINA DUTRA
Traço Esquizoide: A Ferida da Rejeição e o Afastamento como Proteção
Publicado
em
O traço esquizoide nasce da ferida da rejeição. É uma das estruturas mais precoces na formação do caráter, surgindo muito cedo, muitas vezes ainda no período gestacional ou nos primeiros meses de vida. Antes mesmo de a criança compreender o mundo, o corpo já registra uma mensagem silenciosa: “não há lugar seguro para mim aqui”.
Essa rejeição nem sempre é explícita. Pode vir de uma gravidez não desejada, de uma mãe emocionalmente ausente, de um ambiente frio, hostil ou invasivo, ou de cuidadores que não conseguem sustentar o contato afetivo. O bebê sente o clima emocional. E o corpo responde antes da mente.
Na linguagem corporal reichiana, o esquizoide é marcado por uma quebra precoce no fluxo da energia vital. A energia que deveria expandir-se para o contato se retrai. O corpo aprende a se afastar para não sentir a dor da rejeição. Surge uma cisão entre mente e corpo como forma de proteção.
A criança esquizoide não luta, não pede, não exige. Ela se retira.
A estratégia emocional é simples e sofisticada: menos contato, menos dor.
Com o tempo, essa retirada se transforma em padrão. O mundo interno passa a ser mais seguro do que o mundo externo. A mente vira refúgio. O pensamento, a imaginação e a observação ganham força. O corpo, por sua vez, tende ao retraimento, à desorganização ou à sensação de pouca presença.
Na vida adulta, o traço esquizoide aparece como dificuldade de pertencimento. A pessoa frequentemente sente que não se encaixa, que é diferente ou que está sempre “do lado de fora”. Há uma sensação constante de não ter lugar, mesmo quando objetivamente existe espaço.
No cotidiano, isso se manifesta de formas muito concretas:
– Desconforto em ambientes sociais
– Cansaço após interações prolongadas
– Dificuldade de iniciar ou sustentar vínculos íntimos
– Tendência ao isolamento emocional
– Vida mental intensa, rica, analítica
– Sensação de observar a vida mais do que vivê-la
O esquizoide não é frio. Ele é sensível demais para um mundo que foi sentido como hostil. O afastamento não é desinteresse, é autoproteção.
No corpo, essa estrutura pode aparecer como sensação de falta de enraizamento, pouca conexão com as próprias sensações, respiração superficial ou dificuldade de sentir prazer no contato físico. Não se trata de estética, mas de presença corporal.
Muitos esquizoides funcionam bem intelectualmente, mas têm dificuldade de habitar o próprio corpo. A mente se desenvolve, mas o corpo fica como um território pouco ocupado. Isso gera uma vida vivida “do pescoço para cima”.
Nos relacionamentos, o esquizoide deseja conexão, mas teme a invasão. Aproxima-se com cautela e afasta-se quando o vínculo começa a aprofundar. Não por falta de amor, mas por medo de se perder ou se machucar novamente.
A dor central é profunda e silenciosa: “Se eu me mostrar por inteiro, não sou aceito.”
A cura do traço esquizoide não passa por exposição forçada, nem por exigências de socialização. Forçar contato só reforça a defesa. O caminho terapêutico é o da segurança no vínculo.
É preciso criar experiências onde o contato não machuca. Onde existir não gera rejeição. Onde o corpo pode, aos poucos, sentir que é seguro estar presente.
No processo terapêutico, o trabalho envolve:
– Reconexão com o corpo e as sensações
– Exercícios de aterramento e presença
– Respeito ao ritmo de aproximação
– Construção de vínculos poucos, mas seguros
– Validação da sensibilidade como força, não fraqueza
Quando o esquizoide começa a habitar o próprio corpo, algo essencial se reorganiza. A energia vital volta a circular. O contato deixa de ser ameaça. A presença deixa de ser perigosa.
A grande virada acontece quando a pessoa internaliza, não como ideia, mas como experiência corporal: “Eu posso existir, ocupar espaço e ainda assim estar seguro.”
Nesse momento, o esquizoide deixa de apenas observar a vida e começa, aos poucos, a participar dela.
Na próxima semana, exploraremos um padrão que surge de uma dinâmica relacional completamente diferente. Não perca a continuação desta série: “Traço Masoquista: A armadilha do sofrimento e a dificuldade de receber o bem”.
…………………..
Marina Dutra – Terapeuta
Instagram: @sersuperconsciente
E-mail: sersuperconsciente@gmail.com