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Asa Norte

O caixeiro-viajante e o imbróglio com a esposa do policial

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Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Foto Irene Araújo

O velho Olegário estava degustando aquela cerveja estupidamente gelada no Bar do Bosco, ali na quadra 709 Norte, em Brasília, quando Mauro Antônio e Cleidson, dois rapazolas da região, instigaram o sujeito a lhes contar suas antigas aventuras como caixeiro-viajante lá nas Minas Gerais.

Naquele tempo, por conta da falta de nota fiscal das mercadorias (exclusivamente roupas femininas) comercializadas por Olegário, ele precisava desviar das rotas óbvias para evitar a Polícia Rodoviária Federal (PRF). No entanto, apesar da malandragem adquirida ao longo dos anos, vez ou outra, o caixeiro-viajante não conseguia se desvencilhar da mão do Estado. Se bem que, no caso em questão, provavelmente o Estado fazia vista grossa para os desvios dos seus não tão nobres servidores.

Bem, melhor não deixar a conversa encompridar muito ou, então, periga do Mauro Antônio e do Cleidson irem embora sem ouvirem o fim da história. E não é que, nos idos de 1976, praticamente dois meses após ter caído em uma blitz, Olegário, com a Variant 1972 carregada de produtos, foi parado novamente? Pois foi isso mesmo que aconteceu.

— Mas que coincidência, seu guarda!

— Coincidência digo eu, seu cretino?

— Uai! Tá me ofendendo por quê?

— Por tua causa, peste, minha mulher quase que largou de mim.

— Por minha causa? Mas o que é que eu fiz?

— Pois você não se lembra daqueles trapos que você estava daquela vez?

— Tudo roupa de grife!

— Que grife que nada, que madame da alta não usa aquilo.

— Não usa porque não conhece, mas se conhecesse…

— Pois deixe de conversa fiada, seu, seu…

— Olegário.

— Pois que seja, Olegário, seu safado!

Olegário observou que o nome de guerra do policial era Graça e, brincalhão que era, resolveu arriscar.

— E qual é a sua graça, seu guarda.

— Graça.

— Sim. É justamente isso que quero saber.

— Quer saber o quê?

— A sua graça.

— Graça! Já disse!

— O senhor está me dizendo que a sua graça é Graça?

Já perdendo a paciência, mas não querendo deixá-la escapar por completo, o policial Graça apontou para o nome de guerra costurado logo acima do bolso do uniforme. Obviamente que Olegário sorriu o sorriso dos cínicos, mas sem ser de todo debochado.

— Que coincidência, né, seu guarda?!

— Hum! O que você tem aí hoje?

— Só material do bom.

— Quero ver!

Após o caixeiro-viajante abrir as sacolas e mostrar as mercadorias, o policial catou as mais bonitas e as colocou no banco da viatura. Já as demais, ele já foi metendo no porta malas. Foi aí que o Olegário percebeu que dois vestidos dos mais lindos tinham ido parar na traseira do carro da polícia.

— Uai, seu guarda, acho que a sua digníssima iria adorar aqueles dois vestidos que o senhor acabou de colocar no porta-malas.

— Hum!

— Tenho certeza!

— Aqueles não servem.

— Não servem? Como assim?

— É que a minha Maria Rita engordou um tiquinho.

— Hum! Isso não é problema, meu amigo.

— Não entendi.

— Vamos fazer o seguinte. Acordo de cavalheiros, claro.

— Hum! Pois diga.

— Se o senhor me devolver todas aquelas roupas do porta-malas, eu prometo, palavra de caixeiro-viajante, que não sou moleque, que vou providenciar dois belos vestidos todos os meses para a sua esposa. Mas o senhor não pode mais confiscar minhas mercadorias. De acordo?

O policial, apesar de ressabiado, aceitou o acordo. E, por mais de 15 anos, Maria Rita imaginou que havia se casado com o homem mais apaixonado da região. Tudo graças ao acordo firmado entre seu marido, o policial Graça, e o caixeiro-viajante Olegário.

……………………

Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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