Curta nossa página


Hospital Anchieta

Quando o cuidado se transforma em terror

Publicado

Autor/Imagem:
@donairene13 - Foto de Arquivo

Três pacientes mortos em um hospital de Brasília. Não por complicações da doença, não por erro médico, mas assassinados. Assassinados justamente por quem deveria estar cuidando deles: técnicos de enfermagem. É o tipo de notícia que faz a gente parar o que está fazendo e questionar absolutamente tudo.

O Brasil inteiro está em choque, e não é para menos. Há algo profundamente perturbador nessa história que mexe com nosso senso mais básico de segurança. Quando estamos doentes, quando precisamos de um hospital, nos entregamos completamente vulneráveis nas mãos de desconhecidos. Confiamos. Precisamos confiar. E essa confiança acaba de ser brutalmente violada da forma mais cruel possível.

Fico pensando naqueles pacientes em seus leitos de UTI. Pessoas fragilizadas, talvez inconscientes, dependendo integralmente de aparelhos e de cuidados constantes. Familiares do lado de fora, angustiados, rezando pela recuperação de quem amam. E dentro daquele quarto, alguém vestindo um jaleco, com um crachá de identificação, com toda a aparência de quem está ali para salvar vidas, deliberadamente tirou a vida de quem estava sob seus cuidados. É aterrorizante demais.

E o que mais me assusta, o que certamente está assustando milhões de brasileiros agora, é pensar: poderia ter sido eu. Poderia ter sido minha mãe, meu pai, meu filho, minha avó. Quase todo mundo já passou pela experiência de ter alguém querido internado. Eu mesma já estive em hospitais, já vi pessoas que amo conectadas a tubos e monitores. A gente nunca imagina que, além de lutar contra a doença, seja preciso se proteger de quem deveria estar protegendo.

Esse caso não pode simplesmente virar mais uma manchete que some depois de alguns dias. Essas três mortes precisam servir como um alerta urgente para todo o sistema de saúde brasileiro. É inadmissível que hospitais não tenham mecanismos mais eficazes de vigilância, especialmente em ambientes tão sensíveis quanto unidades de terapia intensiva. Câmeras, protocolos de supervisão, checagem constante, tudo isso precisa ser repensado e intensificado.

Mais do que isso, é fundamental que a seleção dos profissionais de saúde seja muito mais rigorosa. Não estou falando apenas de competência técnica, mas de avaliação psicológica, checagem de antecedentes, acompanhamento contínuo. Pessoas com poder de vida e morte sobre pacientes vulneráveis precisam passar por crivos muito mais severos. A vida humana é valiosa demais para que qualquer falha nesses processos seja aceitável.

Sei que a imensa maioria dos profissionais de enfermagem são pessoas dedicadas, que escolheram essa profissão por vocação genuína de cuidar. Mas casos como esse nos obrigam a reconhecer que confiança cega não pode mais ser a norma. A proteção dos pacientes precisa vir em primeiro lugar, sempre.

Enquanto as investigações prosseguem e a justiça segue seu curso, que essa tragédia não seja esquecida. Que ela provoque mudanças reais, estruturais, permanentes. Porque, da próxima vez que eu ou qualquer pessoa que amo precisar de cuidados hospitalares, quero ter a certeza de que estaremos realmente sendo cuidados, e não correndo riscos que jamais deveríamos correr.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.