O viajante
O tempo, o vento e as fronteiras
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Do presente há um passado, tornando-se futuro que nada mais é que o agora. Desse agora o Viajante do Tempo se transporta para outros agoras, vivendo momentos do passado que um dia foram um presente e um futuro, assim é o tempo, na verdade um eterno agora trabalhado para contar uma história. Nessa viagem podemos retroagir ao tempo das fronteiras, onde elas estavam começando a ser marcadas.
O Viajante do Tempo fica abismado ao ver tamanha força bruta que foi usada, tamanha lealdade dos homens nas batalhas e tamanha era a dedicação em favor de marcar um espaço físico, uma luta de interesses dos trabalhadores e dos burgueses, que os mantinham ali para segurança de seu patrimônio.
Indo para esse tal tempo distante, onde havia noites em que o minuano assustava os cavalos, numa terra onde as almas charruas cavalgavam coxilhas, ali se guardavam as fronteiras do sul brasileiro. Um lugar onde os homens se consideravam centauros, por viverem em cima de seus cavalos e manterem as marcas de casco no chão, assim se configuravam as peleas em favor da pampa, assim viviam os que protegiam as fronteiras.
Por um tempo a proteção foi pela coroa, depois o império, a república era um tema presente e logo foram em sua defesa, sua audácia e astucia fundou o exército brasileiro, figuras míticas usaram de seu conhecimento em favor do estado, que por muitas vezes foi seu inimigo. Assim o tema da lealdade também é questionado, o quão eram leais? Bento, Antonio Neto, Giuseppe, David Canabarro, Rivera, Lavalleja, aos Dons Pedros, Don Joãos, toda essa turma, para quem era essa tal lealdade?
O Viajante do Tempo então questiona a história, era ela assim como nos contaram? Pois quem conta um conto sempre aumenta um ponto? Na verdade, a resposta é óbvia, pensando um pouco mais se chega a uma conclusão, a história é contada pelo vencedor, por isso o conto e o ponto. Serão de verdade eles os vencedores? Podem ter vencido naquele agora e isso ainda é contado para a gente nesse agora, moldado com um ponto de vista tendencioso, mesmo assim uma vitória não é eterna e permanente, é apenas enquanto durar.
Entrando mais na história o Viajante começa a ver outros nomes de pessoas fora do padrão desses tais centauros, eram homens e mulheres diferentes, com pele negra ou com características indígenas. Pessoas que tiveram nessa história, tendo sua morte apagada ou romantizada, figuras tidas como menos importantes por não serem do padrão dos homens bravos e leais. Eram muitos Guaranis nas missões e eram os Lanceiros bravos guerreiros lutando por sua honra, todos vivendo nas fronteiras tão guardadas, todos sendo esmagados nesse território riscado de sangue.
Batalhões de homens sem nada a perder, por terem lhes tirado tudo, representantes de seu povo, colocados em situação de extermínio pelo interesse de seus algozes. Os Guarani entregues pelo império português por terem negociado seu território com os espanhóis em terras recém invadidas. Os lanceiros negros entregues à morte para não ganhar sua alforria tão desejada e tão merecida por seus bravos serviços prestados a uma revolução que nem classificada como revolução deveria ser. Serve de aprendizado, nem sempre o inimigo do meu inimigo é meu amigo.
Guerras e guerras, luta de interesses ceifando vidas, vidas que não tinham muito a ganhar com a resolução desses conflitos. Uma parte do tempo na história onde andavam com suas adagas afiadas, ponchos negros sobre os ombros, chapéus batidos na face, logo desciam de seus cavalos, após entrarem nos vilarejos miravam um infeliz e lhes cortavam a cabeça com um golpe, onde as adagas mostravam sentido, ao saírem deixavam na soleira um pano branco manchado de vermelho.
Viajar no tempo machucou, mostrou como o romance sobre as terras onde pisamos muitas vezes é uma mentira. Quase uma tentativa de nos fazer amar as coisas mais desumanas da humanidade, sempre que o viajante pensa no que viu e sentiu, volta a se perguntar a quem serve essa lealdade? A quem serve o romance de guerras em favor de fronteiras? Lembra que as fronteiras não são garantias e sim limites físicos inventados para diferenciar e dividir as pessoas desde sempre. Para quem quer poder uma fronteira serve e muito na sua manutenção, garantida por terceiros que irão morrer em cima dos cavalos com adagas nas mãos.
Nos contam a história como se fossemos Guris, querendo usar as roupas velhas do pai, a faca antiga do avô, ambos não estão mais presentes para esse Guri, estão mortos por uma honra que nem lhes serve, por conquista de nada em lugar nenhum. Colocam lenço vermelho e guaiaca, saem por aí em marcha com cavalos e esporas. A história os valoriza numa figura mítica, como se não tivessem identidade própria, como se muitos não tivessem tido personalidade para romper com a falsa lealdade que precisavam bancar. Houve figuras que romperam a lógica dessas lutas sem precisar romper o mito da figura? Talvez Languiru, Tiaraju, Gavião, Manuel Alves, foram essas figuras? Para o viajante não foram, são figuras importantes, mas não romperam essa força patriarcal em favor dessas tais fronteiras. São figuras massacradas pela força desproporcional dessas guerras de interesse.
Mais alguns viajantes do tempo explicaram isso, Abdias do Nascimento nos contou também, Jorge Euzébio não fez diferente, ambos viajaram no tempo e trouxeram boas novos de um agora que já passou.
Voltando para o momento atual o Viajante do tempo reflete e nos conta algo, indo ao agora do passado ele entende que não há batalha justa quando se luta por restrição de espaço, quando se luta pelo interesse alheio, quando se prega lealdade para uma guerra que não há vitória possível aos mais oprimidos. No Sul, foi assim, uma criação de lendas e figuras, como se tivessem sido heróis imaculados. Existe uma lindeza em venerar a história, existe uma alienação em apenas venerar a história que nos contaram, viajar no tempo é poder decidir a forma de contar a história. Fechando com um verso que fala sobre a lindeza de amar um lugar, de cultivar a sua cultura, lembrando que o Viajante diz: “não é sobre cultivar ou não, mas é sobre como o nosso agora tem interferência do antigo agora e como podemos fazer o atual agora ser um rompimento com o agora de antes”. Vamos para o verso:
E se Deus não achar muito tanta coisa que eu pedi
Não deixe que eu me separe deste rancho onde nasci
Nem me desperte tão cedo do meu sonho de guri
E de lambuja permita que eu nunca saia daqui
E de lambuja permita que eu nunca saia daqui
E de lambuja permita que eu nunca saia daqui