Temporalidade
Somos tempo enquanto existimos
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Em Ser e Tempo, Heidegger nos provoca com uma ruptura decisiva: o ser humano não está simplesmente no tempo como um objeto que ocupa um intervalo cronológico. O Dasein o ser-aí é tempo. Mais precisamente, é temporalidade. O tempo não é um recipiente externo onde a vida acontece; ele é a própria estrutura da existência.
Heidegger rejeita a noção comum de tempo como sucessão linear de instantes passado, presente e futuro organizados como uma linha. Para ele, essa é uma compreensão derivada, empobrecida, própria da vida cotidiana e da racionalidade técnica. O tempo originário é existencial: manifesta-se na maneira como o Dasein se projeta, se compreende e se relaciona com o mundo.
Somos, antes de tudo, seres lançados (Geworfenheit). Nascemos em um mundo que não escolhemos, em condições históricas, sociais e afetivas que nos precedem. Esse “já-estar-aí” constitui o que chamamos de passado, mas não como algo encerrado: o passado permanece operante, estruturando nossas possibilidades no presente.
Ao mesmo tempo, existimos como ser-projeto (Entwurf). Vivemos sempre antecipando, escolhendo, temendo, desejando. É o futuro e não o presente que ocupa o lugar central na temporalidade heideggeriana. O Dasein é um ser que se compreende a partir daquilo que ainda não é, mas pode vir a ser. Por isso, o futuro não é mera expectativa: ele organiza o sentido da existência.
O presente, por sua vez, não é um ponto fixo. Heidegger o chama de presença (Gegenwart), um agora tensionado entre o que foi e o que vem. O presente só faz sentido porque carrega o peso do passado e a abertura do futuro. Fora dessa articulação, ele se dissolve em rotina, repetição e alienação.
É nesse contexto que surge a noção de ser-para-a-morte (Sein-zum-Tode). A morte, para Heidegger, não é apenas um evento biológico futuro, mas a possibilidade mais própria do Dasein. Ela revela a finitude radical da existência e rompe as ilusões de infinitude produzidas pelo cotidiano. Ao reconhecer a morte como possibilidade constante, o ser humano pode acessar uma existência mais autêntica.
A autenticidade (Eigentlichkeit) não significa viver corretamente segundo normas externas, mas assumir a própria temporalidade. É aceitar que o tempo é finito, que as escolhas são irrecuperáveis e que não viver também é uma forma de decidir. Já a inautenticidade (Uneigentlichkeit) aparece quando nos perdemos no impessoal, o das Man, vivendo como “todo mundo”, adiando a vida, silenciando o incômodo do tempo.
Assim, dizer que somos seres no tempo é insuficiente. Heidegger vai além: somos o próprio acontecer do tempo. Existir é temporalizar-se. Cada escolha, cada adiamento, cada ruptura é uma forma de tempo que se realiza em nós.
Habitar o tempo, então, não é dominá-lo, mas escutá-lo. É reconhecer que viver é sempre viver sob o signo da finitude e que exatamente por isso cada gesto, cada palavra e cada recusa importam.