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O LADO B DA LITERATURA

Marchi e Martínez, o italiano que se juntou ao espanhol e deu literatura

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Autor/Imagem:
Cassiano Condé - Fotos de Arquivo

No Rio de Janeiro, onde a cidade vive de mar e de esquina, há genealogias que parecem roteiros de novela e outras que cheiram a café coado, a balcão gasto e a banda tocando dobrado no coreto. E, no entanto, quando a literatura é de verdade, ela faz uma coisa que a vida social raramente consegue: coloca essas linhagens para conversar sem pedir licença ao brasão nem ao caixa do botequim.

Eduardo Martínez traz no sobrenome um eco de convés. No fundo do fundo, lá atrás, aparece Don Nicácio Martínez y Fernández, espanhol de título e de tino, comendador e armador, desses que sabiam transformar vento em dinheiro e porto em império. Riquíssimo negociante no Brasil, figura de época em que a palavra “armador” tinha peso de decisão, e a fortuna parecia nascer da mistura de sal, cálculo e audácia. Imaginem a cena: o homem diante do mapa, o dedo marcando rotas como quem marca destinos, o navio como extensão da vontade, a riqueza como um idioma falado alto, com sotaque de comando.

Do outro lado da mesma Guanabara simbólica, Daniel Marchi vem de uma origem que não pede trombeta: pede banco de madeira. Seu antepassado era Marco Paolo Marchi, italiano modestíssimo, comerciante do interior do Rio, dono de botequim tocado com os filhos mais velhos, homem que conhecia os nomes da freguesia e o humor do dia pela forma como o copo pousava no balcão. E, como se o mundo gostasse de esconder poesia onde ninguém procura, Marco Paolo ainda era maestro de uma bandinha de retreta. Aos domingos, no coreto da praça, a cidade ganhava música, e a música, por alguns minutos, virava o próprio relógio da semana. A mão que servia e anotava fiado era a mesma que regia clarinetes e trombones: uma economia íntima, doméstica, quase invisível, mas absolutamente essencial.

Pronto. Está montado o contraste que os genealogistas amam e os escritores desconfiam: de um lado, o mar, o título, o ouro; do outro, a praça, o botequim, a partitura. Só que aí entra o Lado B, essa parte da história que não cabe no retrato oficial. Porque, a despeito da diferença de origem, Edu e Dan fazem literatura de primeira qualidade. E fazem juntos, como quem prova que o talento não herda cofre, herda teimosia. Conhecem-se desde sempre, irmanados por laços fraternos que não precisam de cerimônia, só de tempo. Há amizades que nascem de coincidências; a deles parece nascer de uma familiaridade antiga, como se um reconhecesse no outro uma espécie de parente invisível, desses que a vida escolhe por afinidade, não por sangue.

E é aí que a história privada vira serviço público. Porque os dois, com Cecilia Baumann, tocam o Café Literário com brilho e nervo, dentro de Notibras, fazendo aquilo que a literatura brasileira sempre precisou que alguém fizesse com constância: abrir janela onde só havia vitrine. Cecilia, aliás, ajuda a explicar por que esse trio funciona como funciona, pela própria mistura que carrega (mineiros no tempero, portugueses de Braga no rigor, alemães da Renânia-Palatinado na disciplina), uma genealogia que parece mapa de imigração e acaba virando mapa editorial. O Café Literário, assim, não é apenas uma seção: é uma espécie de ponte de madeira firme, dessas que atravessam rios largos sem estardalhaço, ligando os rincões do Brasil a um palco que não exige credencial de “grande casa”, só exige texto bom.

Eduardo, com sua lucidez sem pose, coloca o dedo numa ferida antiga e, ao mesmo tempo, contemporânea: a arte não se faz por rupturas repentinas, mas por processos que se interligam, amadurecem, se atritam, até que chega o confronto entre escolas. Nada cai do céu de uma vez; o novo, muitas vezes, já começa a “morrer” no nascedouro, engolido pela pressa do mercado e pelo vício da novidade. E, nesse cenário, a imprensa tradicional, segundo ele, parece ter feito um pacto silencioso com as grandes editoras, como se o “bom” e o “digno de leitura” fossem um cardápio pronto. O que está fora vira “menor”, “alternativo” dito com desdém, “indigno de nota”, como se a literatura precisasse de carimbo para existir.

Só que o mundo mudou de lugar sem pedir desculpas. A internet, esse trem desgovernado e maravilhoso, fez o que os salões raramente fazem: multiplicou as entradas. Milhares de escritores surgem de todas as partes, e talentos que jamais seriam conhecidos despontam com força. Edu e Dan se reconhecem nesse território fora do cardápio das editoras maiores e fora da mídia tradicional, e ainda assim não invisível. São lidos. São trabalhados em escolas. Fazem barulho, e não é pouco. Não o barulho vazio da autopromoção, mas o barulho orgânico de quem circula por leitores reais, por comunidades, por professores, por gente que passa adiante um texto como quem passa uma boa notícia.

E aqui entra a frase que, dita por Daniel Marchi, deveria estar pendurada em toda parede de escritor que leva a própria vaidade a sério demais: não se faz literatura sozinho. É uma dessas verdades simples que doem porque desmontam o mito do gênio isolado. Claro, cada artista carrega o seu ego, essa criança faminta por aplauso. Mas a literatura que se sustenta é a que aprende a ler o outro, divulgar o outro, enaltecer o outro, criar corrente onde havia apenas disputa. O Café Literário, no fundo, é esse gesto: uma política da leitura, um pacto de generosidade que não elimina a qualidade; ao contrário, a exige.

Se Don Nicácio fez riqueza com rotas e Marco Paolo fez comunidade com balcão e coreto, Edu e Dan fazem outra espécie de patrimônio: um acervo vivo, múltiplo, saboroso. A literatura fora do cardápio imposto é mais variada, mais atrevida, mais humana, porque não precisa obedecer ao gosto de um comitê; precisa apenas acertar o coração e a inteligência do leitor. E talvez seja esse o segredo do encontro desses dois cariocas, amigos desde sempre, cada um com seu passado fazendo sombra e luz ao mesmo tempo: quando a escrita é séria, ela não pergunta de onde você vem. Ela pergunta o que você vê. E, principalmente, se você tem coragem de compartilhar a visão, em voz alta, com a sua tribo.

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Cassiano Condé, 82, gaúcho, deixou de teclar reportagens nas redações por onde passou. Agora finca os pés nas areias da Praia do Cassino, em Rio Grande, onde extrai pérolas que se transformam em crônicas.

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