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Vasco x Flamengo

Hugo é vascaíno doente, sou Flamengo em estado terminal

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Hugo, velho amigo de Niterói, me contou esse episódio de sua vida. Hugo é vascaíno doente, sou Flamengo em estado terminal, mas mantive a trama original do causo. Uma preocupação com a verossimilhança pouco usual em contistas, admito. Só que, with a little help from my friend Google, escolhi o ano do conto…

Era a tarde do dia 14 de outubro de 1961. Hugo, um niteroiense de 15 anos fanático pelo Vasco, saiu das barcas, atravessou a praça XV e subiu no bonde Lins e Vasconcelos, que o levaria até perto do Maracanã. Iria participar, berrando até ficar rouco, de mais um Flamengo x Vasco, o Clássico dos Milhões, confronto no campo e nas arquibancadas entre as duas maiores torcidas cariocas.

“Dessa vez vai dar Vasco”, pensou o rapaz. “Tem que dar. Ganhamos dos urubus favelados em janeiro, por 1 x 0, perdemos em abril por 2 x 1 e em agosto, por 1 x 0. Mas hoje o Gigante da Colina vai triunfar!!!

(Pobre Hugo, baixinho da colina seria uma descrição mais exata.)

O bonde estava cheio de torcedores rubro-negros e alvi-negros, portando bandeiras, convivendo na santa paz. Mas o trajeto do coletivo passava perto do Mangue, a extensa zona de prostituição do Rio de Janeiro. Dali, alguém gritou:

– A concentração do Flamengo é aqui!

Furioso, um flamenguista respondeu:

– É sim, e sua mãe está trabalhando!

E o pau comeu. Meter a mãe no meio era uma ofensa imperdoável, superada apenas por meter no meio da mãe (papai podia, embora os rebentos se recusassem a admitir isso, muito menos a falar sobre a coisa; os demais machos da espécie humana, nem pensar). O motorneiro parou o bonde e arrancou com uma porrada dois dentes de um vascaíno que estava morrendo de rir; muitos desceram, para ter mais espaço para a briga, e utilizaram suas bandeiras como porretes. A peleja se estendeu às ruelas do Mangue; em resumo, foi um quebra-pau pra botocudo nenhum botar defeito.

Quanto a Hugo, ficou quietinho no ônibus, fazendo cara de paisagem, fingindo-se de morto. Tinha apenas 15 anos, não ia enfrentar aqueles cavalões…

Apareceram duas duplas de Cosme & Damião, com seus pesados cassetetes; baixando democraticamente o cacete em vascaínos e flamenguistas, acalmaram os ânimos. Os passageiros voltaram ao bonde, rosnando uns para os outros, mas sem retomar o confronto. O coletivo os levou até o Maraca, onde todos saltaram (menos o cobrador e o motorneiro, que o restante, como tudo na vida, era (é) passageiro).

No final, Flamengo 3 x Vasco O. Cabisbaixo, Hugo voltou à praça XV, dirigiu-se à estação das barcas e foi pra Niterói, pra chorar as pitangas com outros vascaínos que, sorte deles, não haviam testemunhado mais um vexame do baixinho da colina.

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