Jogar para plateia
Forrest Gump do Cerrado vê caminhada do gado em cima de caminhonete
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Faz seis dias que estou acompanhado a caminhada pela liberdade de Nikolas Ferreira (PL-MG). O que tenho visto é o gado solto, pegando chuva e sentindo frio na BR-040. Em férias e à vontade para fazer o que bem entender, o menino maluquinho do Partido Liberal parece um turbo a bordo da caminhonete vermelha e adentrando o hotel de luxo em Cristalina. Ele pode. Mas o gado me lembrou um meme mostrando uma vaca se coçando com uma geringonça do tipo vassoura de piaçava. Engraçado, pitoresco e inédito, o vídeo sem legenda me chamou atenção por uma razão eminentemente política.
Depois de tanto perrengue com os extremistas que se acham superiores, mais trabalhadores e mais operantes, descobrir uma vaca aprendendo a se coçar é a certeza de que qualquer ser que respira é mais funcional do que os deputados do partido do Valdemar Costa Neto. Como pista não é pasto, está claro para o eleitor que conhece o peso do voto que fazer parte do PL é assumir o predicado de enganador. Na linguagem do povo, o engano do enganador é pensar que os enganados permanecerão sempre desenganados. Qualquer coincidência com Nikolas, o Forrest Gump do Cerrado, não é mera semelhança.
No artigo publicado na quinta-feira (22) imaginei um correligionário sugerindo ao deputado mineiro pendurar no pescoço a cueca usada por Jair Bolsonaro na primeira noite da Papudinha. Ninguém me ouviu. Pelo contrário. Como Nikolas faz de tudo para não trabalhar, os cinco ou seis mil seguidores que se juntaram a ele também adoram um ócio politizado e bajulador. Felizmente, a maioria dos brasileiros tem de trabalhar para sustentá-los. Como disse Frei Damião para Padre Julião, o pior cego é aquele que não quer ver.
Depois da publicação do texto, os comentários deram o tom mais verdadeiro acerca da marmota produzida por Nikolas. Um deles sugeria que, para ter sucesso garantido, a cada 10 km de caminhada os deputados que participam da manifestação deveriam levantar uma placa com o quantitativo de projetos apresentados em benefício do trabalhador. Tão difícil como perguntar quantos dias eles já estiveram em plenário nesses quase quatro anos de mandato. Pior ainda é a ideia de protestar nas portas dos postos de saúde e dos hospitais contra a falta de médicos e de medicamentos. Trabalhar pelo povo não é a prioridade de nenhum deles.
Pessoas sérias, comprometidas com a nação e legalistas sabem que Nikolas e sua tropa mambembe estão jogando para a plateia que vive de utopias. Podem até atravessar Minas Gerais, Brasília, Washington e a Sibéria, mas jamais conseguirão libertar o presidiário das mãos de Xandão. Aliás, como ilustração, um xerifão de toga que peitou Donald Trump e Elon Musk nunca mostrará os panos de baixo para o “Chupetinha”. Por tudo isso, não há com discordar de um leitor que define o ato do menino bajulador como autopromoção à custa de um preso que, haja o que houver e para o bem de todos, continuará preso.
Sem projetos aprovados, mas com tempo de sobra para o que não presta, Nikolas precisa descer do picadeiro e, da mesma forma que supostamente luta por uma pessoa, trabalhar pelos 213 milhões de brasileiros. Transformar em palanques uma caminhonete e o acostamento de uma via federal é mostrar ao mundo que o Brasil realmente é uma piada tão sem graça como a família que o deputado usa como exemplo de moralidade. Como sugestão final, chegando na Capital da República, após o marmitex de praxe, o gado pode encerrar a caminhada escorregando para a fama no tobogã do parque Nicolândia, assistindo Nikolas plantando as 13 bananeiras da sorte. Ou seria do azar definitivo?
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Sonja Tavares é Editora de Política de Notibras